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quinta-feira, 1 de julho de 2021

O que aprendi
DF Junho/2021
Fernando Grossi
Para a professor Rosa Amélia Pereira da Silva que muito me ensina

Com o Rosa aprendi
que a palavra se veste de palavras
para encantar o sentido.
E cria, com gibão de couro,
vestido de princesa.

Com a Rosa aprendi
que a palavra ensina e apreende.
Que a poesia da palavra não é
seu significado físico, pétreo,
essa pedra que se leva no peito.

Com os rosas aprendi
que a palavra nasce antes
de ser pensada ou dita.
Nasce do fazer do povo
em seu destino de ser agente.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Eu e eu...

Por Rosa Amélia
Eu estou tentando me encontrar...
Ser eu e não ser esse eu que sempre fui.
Quero ser mais poesia.
Esta que reside em mim
E que foi oprimida.
Vem, Poesia,
Deixe-me ser...
Vem, Poesia,
Deusa do universo.
Vem, Poesia,
Concretização da vida.
Vem, Poesia,
Integre-se a mim.
Seja-me.
Eu sou a Poesia que me habita
E que deseja habitar o mundo.
Poesia em verso, em prosa.
Poesia é o que eu tenho em mim.
Poesia para o mundo e pra você
Poesia para mim.

Tu Tens um Medo



Cecília Meireles


Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo...
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...
... E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Coração sertanejo

        Sou sertaneja. Meu coração é do sertão. Hoje estou andarilha pelo mundo, conhecendo outras paragens; mas o de que eu gosto mesmo é do sertão, é da mata, das veredas, do cerrado, dos bichos, todos eles. Acredito que tenho muito a aprender, busco... constantemente. A travessia pelo Sertão será mais um passo nesse caminhar em busca de entender esse mundo, as nossas lutas, as nossas necessidades humanas... Conheço o Sertão das veredas... Desejo ampliar a minha perspectiva sertaneja e conhecer os Sertões do mundo.
        O Sertão que mora em mim é desejoso de se integrar a outros sertões do mundo. O Ser tão que mora em mim não é mais o meu sertão, senão o sertão do outro. Conhecer o sertão do outro é conhecer a mim mesma e continuar nessa busca em torno do entendimento da Poesia Concreta que é o grande sertão ou os sertões. Os grandes sertões e as pequenas veredas são uma manifestação completa e complementar do cosmo poeticamente, na sua diversidade mais linda, tudo isso imagino.

     Desejo conhecer mais esse mundo sertanejo, mergulhar na sua cultura, contribuir para o empoderamento das pessoas que nele vivem. Quero ser, ao menos, uma fagulha de sensibilidade para aqueles que olham o sertão e não veem a beleza poética extraordinária que o compõe. Precisamos lutar pelo sertão, para que ele continue sendo essencial na cultura nacional e para que ele se torne poesia aos olhos de quem não o vê poeticamente. Desejo participar dessa luta em benefício do sertão e em benefício de mim mesma. O sertão é lindo... o sertão é poesia. O sertão somos nós.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Vômito seco - um pedido de perdão a uma mãe que se foi.

                                       Por Rosa Amélia
Você morreu, mãe, e eu não chorei.

Perdoa-me por eu não ter chorado naquele dia, eu não podia chorar.

Não podia chorar, eu não sabia o que era a morte.
Mas depois, eu chorei a vida toda.

Eu chorei quando você não voltou.

Eu chorei as brincadeiras jocosas dos vizinhos por você ter preferido ir morar numa caixa.

Eu chorei o seu não estar aqui.

Eu chorei o seu colo.

Eu chorei a tristeza da casa da roça vazia de você.

Eu chorei nossas idas ao córrego.

Eu chorei a falta das suas orelhas no balanço da rede ao dormir.

Eu chorei a ausência de seus ensinamentos.

Eu chorei a falta de suas possíveis broncas e estímulos.

Eu chorei a falta da conversa materna.

Eu chorei o seu exemplo de maternidade.

Eu chorei o seu exemplo de conciliação.

Eu chorei a saudade do seu arroz com feijão.

Eu chorei o sabor dos biscoitos quentinhos no grande forno de quintal.

Eu chorei a falta do seu amor.


Eu chorei a nossa solidão cósmica - a sua e a minha.

Eu chorei, sem poder chorar.

Fizeram-me engolir o meu pranto e a minha tristeza.

O seu luto eu vivi na calada da noite, na solidão da enorme escola, na responsabilidade de ser a irmã que acolhe,  compreende e ajuda, no sonho da professora que me encantou, no quieto do quintal, debaixo da goiabeira, mais tarde no encantamento dos contos de fadas, das histórias de crianças órfãs abandonadas na floresta;  quando mocinha, no silêncio reverberante da palavra literária, na orfandade de filha e de uma filha.

Eu engoli, a seco,  no silêncio da noite, no quieto do quintal, na leitura e nos estudos dos livros, o luto que eu vivi toda uma vida.

Eu chorei a vida toda silenciosamente... um choro calado, pra dentro.

Fizeram-me forte para além dos meus braços e me deram limites a cumprir. Cumpri-os, sem paixão. Eu não podia  chorar. "Engole o choro, engole o choro". Aprendi a chorar baixinho, sofrido, calado, molhado para dentro, seco nos olhos. O choro foi a tristeza interna refletida no olhar e não a lágrima que reverbera face abaixo.

Hoje o vômito, primeiro, a seco, veio à tona... depois o vômito, o vômito do vômito fétido me fez expelir todo "engula o choro" que me desceram goela a baixo.

E hoje me liberto dessa dor que estava aqui engasgada, presente e forte, como se fosse parte necessária de mim, há 45 anos, por  não ter podido chorar o meu pranto quando fui capaz de compreender o que é a morte e, por consequência, compreender a SUA morte.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Tautologia

                       Encontrar Deus é divino. 
         
     
            J. G. Rosa entenderia essa tautologia.

A poesia divina

                       Deus é Poesia!!!!
                                                                                                                                                Por Rosa Amélia
A poesia é a expressão de Deus.

Deus é Poesia. É orgasmo permanente diluído na extensão cósmica...

Acordar e reconhecer a poética cósmica é tornar-se Poesia 
Num universo caótico 
E perfeitamente harmonioso. 

Sejamos Poesia...

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Santo remédio de Elisa Lucinda

"O coração quis amanhecer quebradiço no canto do quarto.
Não deixei. 
Um céu assim de passarinhos faz coro preu não chorar.
O homem recolheu seus mimos, retirou-me da companhia de seus versos de amor escritos em minha direção e chacoalhou com 
força meu pequeno frasco de certezas, 
e revelou-se o incerto.
Sexta-feira.
Ponho as cartas sobre a mesa,
exponho-me à leitura de mim.
Leio meus ais e suas frustrações.
Enquanto escrevo,
uma lágrima escorre pelo lado esquerdo do rosto
teimosa em mostrar-se a mim,
assim mesmo, como lágrima
em estado de não-alegria.
Enxugo-a, eu quase fria.
Não me comovem as cenas do mal estar da civilização logo pela manhã.
Toma-me a consciência de que tudo que amamos é revestido daquela camada de intenções vindas da nossa antiga fábrica de ilusões,
que não para, nunca para de funcionar noite e dia, dia e noite, o velho galpão.
Estou como uma menina querendo colo, carinho, a certeza do amor dos meus, o ninho.
Cato lembranças de afetos profundos que recebi, faço um emplastro disso, daquela mistura amorosa
e ponho sobre os cortes, sobre os trincados da vidraça do meu coração.
Pronto.
Encantação.
Agora mesmo, pus um versinho bobo de amor sobre a ferida.
Vou esperar cicatrização."
("Santo remédio", Elisa Lucinda)

sábado, 16 de setembro de 2017

Chora, coração... chora...

O meu coração chora baixinho... 
Chora, coração... 
Chora sozinho...

O meu coração chora baixinho... 
Chora, coração...
Chora pasminho... 

O meu coração chora baixinho...
Chora, coração... 
Chora mansinho... 

O meu coração chora baixinho...
Chora, coração...
Chora passarinho...

Uma hora a dor vai passar... 
E o coração volta a voar... 
Batendo as asas
E nunca mais em qualquer ninho pousar... 

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Coragem, coração...


  Por Rosa Amélia
Coração que chove...
                     chora... 
                      silencia.... 
                        experiencia.... 
                        entristece...
                       emudece...
                    cresce... 
Não sei para onde... 
Mas cresce apertado... embolado... 
Num emaranhado de sentimento...

Alma que transborda... 
                  Para onde não sei... 
                        Um rio há de desaguar... 
                                 e desmisturar... 

Coração mistura sentimento. Tudo cabe... 
Só não cabe ressentimento. 


sábado, 5 de agosto de 2017

Cansaço...

Por Rosa Amélia
Ao envelhecer,
Passamos a fazer tudo errado.

Aos olhos dos filhos...
nunca acertamos.
Sempre somos
o desalinho...
o desacerto.

Só sei que o cansaço
é a única coisa que me atinge...

Não sou Tereza, cansada de guerra,
Mas sou Rosa, cansada da luta.

A única coisa que quero
É envelhecer em paz...
E ter o direito de errar.

A única coisa que quero
é não ser cobrada
por nada, nem mesmo de existir...

A única coisa que quero
é poder entrar na minha casa
e se  quiser falar,
se quiser sorrir
se quiser dormir
que não haja ninguém para
nada na cara me cuspir...

Não sou Tereza...
Sou Rosa... cansada da luta...


quinta-feira, 20 de julho de 2017

Aqui e ali... sem arrumo

Por Rosa Amélia
Aqui e ali,
Sem arrumo...
Sem aprumo.
Sem remo,
Sem arrimo...
Vou e busco.
Não encontro.
A sensação é de abandono.
Toleima...
O que a vida quer da gente é coragem...
Eita vida besta, meu Deus...
Coragem acho que tenho de menos...
Deus acho que tenho demais...
E vou seguindo...

sábado, 15 de julho de 2017

Freira x puta????

Por Rosa Amélia

Não confunda minha educação
com a sua intenção.
A Amélia que existe em mim
Não é a Amélia que você imagina.
Não sou freira e nem sou puta:
Respeite o meu direito de ser
O meu meio termo
Não  deve ser confundido
Com o seu machismo.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Travas
                                                                     Por Rosa Amélia
Minha trava cruel...
Minha moral
Que não me deixa ir ao céu.
Minha trava cruel... 
Minha moral
Que só me cede da vida o fel. 
Minha trava cruel
Minha moral
Que não me deixa ser 
O que eu desejo e sou...

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Deus é.


                          Por Rosa Amélia 
A vida é                                                                      
              O que Deus quer.               
                                         A vida segue 
No compasso da fé. 


Deus é...
                    Enquanto a vida passa...




Vivamos enquanto há tempo.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Rio-mar do sertão

Por Rosa Amélia

O grande mar assola-nos,
revela o quanto somos pequeninos. 
Os rios do sertão não, 
eles nos dão vida,
mostram-nos que precisamos
uns dos outros
e que precisamos deles.
O mar é autônomo e autoritário.
Os rios são dependentes e solidários.
O mar é solidão.



O rio é compaixão.
O rio acolhe.
O mar assusta.
O mar e o rio-rio-rio
Cada um com seus mistérios.
Gosto mais de rios...
O mar, por sua imensidão, me enamora...
O rio, por sua lassidão, me apaixona... 

O rio-rio-rio me aprisiona...
No meu ser tão mar-rio....

Reinventando Drummond

Por Rosa Amélia
Mundo, mundo vasto mundo,
Se o meu nome fosse Raimundo 
Seria uma rima... 
Não uma solução.
Como o meu nome é Rosa...
Sou totalmente uma prosa
Em grande constelação.

Eu

Quando me estou, liberto-me.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

A lua

Por Rosa Amélia 


Deslumbra a lua

A noite é toda tua. 
Em todos os pensamentos
É só deslumbra-mentes:
Tudo encantado:
Puro encantamento. 

A lua

Por Rosa Amélia 




A lua alta e bela 
Mostra-me sem pudor: 
Os meus sonhos sob sua tutela.