quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Reminiscência de infância


Esses dias fui a uma sorveteria aqui em Brasília que se chama Nata do Cerrado.
Nossa, que delícia, provei sorvete de macaxeira, pequi, cagaita, borlé, siriguela, baru. Muita gente não conhece baru, aposto... Eu explico: baru é uma fruta que parece uma amêndoa; mas, lá no interior de Minas, a gente não come a parte externa da mesma maneira que se come a amêndoa, a gente se delicia com a castanha.
Só que, segundo as minhs irmãs, quem tem o sangue quente, sujo, remoso, no sentido de purulento, não deve comer a castanha do baru, porque ela atiça mais a purulência do sangue, o que detona a pele uma vez que é por ela que o sangue supura, sabem o que é isso: supurar? Pois é, o sangue supura! Isso é Minas! Eu era dessas pessoas aí... Meu sangue supurava, deixa eu me explicar:

Eu era dessas pessoas aí de sangue quente, aliás, acho que ainda sou. Mas quero ressaltar que meu sangue não é remoso não, muito menos sujo... Na verdade, eu vivia cheia de feridinhas no corpo e comer baru, como dizia as minhas irmãs, fazia meu sangue supurar e essas ferinhas se tornarem um feridão . No interior, a gente chama isso de pereba, eu era muito perebenta... (rsrsrsrs) Sem conotações pejorativas, tá?
Eu comia muito baru escondido, lembro que eu catava os baruzinhos, um a um, colocando-os na barra do vestido, assim como se fosse uma bolsa, depois corria pra detrás da casa, lá pegava duas pedras para rachar a fruta seca e retirar a castanha. Eu ficava irritada porque eu nunca conseguia tirar as castanhas inteiras, com a batidas das pedras elas sempre ficavam trituradinhas. E, assim, ainda era denunciada.
Quando começava o estalar das pedras, sempre ouvia um grito: - Rosa, cê tá comendo baru!!! Depois cê num guenta as feridinhas, cê sabe que num pode comê essas coisas porque cê tem o sangue quente, remoso, vai te dá coceira!
Eu ficava imaginando: o que é ter o sangue quente? Será isso bom ou ruim? Eu não posso comer baru! Mas deve ter algo de positivo nisso, afinal, só ouvia essa palavra em situações agradáveis, para se referir a coisas boas: banho quente, cama quentinha, comida quente, mel quente, coração quente. E o frio é tão ruim! Será que os meus irmãos têm o sangue frio? Já que eles podem comer baru sem nenhuma restrição! E por que eles não morrem? Vixi!!! Era tanta pergunta! Cabeça de criança é um espetáculo!
Sabe que, ali na sorveteria, eu chorei de saudade... Não de comer os barus escondidos, não faço mais nada escondido, já sou maior e vacinada. Mas sentir o gosto do baru me deu uma sensação saudosista, uma vontade de ser criança de novo, de estar naquela casinha branca, de duas janelas e um quintal de chão batido, de curtir o pé da tamarindo, o gramado verdinho antes da estrada branquinha, a cerca de tábuas lisas onde eu ficava olhando o sol se pôr, o paiol onde a gente se escondia para brincar de pique-esconde, a forma como eu catava os barus, tudo me encantava e relembrar isso me levou ao deleite. A criança renasceu em mim, eu, no meu cantinho, senti lágrimas brotarem, disse ao amigo que me acompanhava: - Baru tem sabor de infância, infância feliz. É muito bom e gostoso tomar sorvete de baru!
Acho que ele não entendeu. Se ele acessar o blog, vai ler esse meu relato e entenderá o meu sentimento e a minha fala, ele também tem o sangue e o coração quentes, é um grande amigo-poeta, a quem admiro muito.

6 comentários:

Joana Darc disse...

Reminiscencia de infância
Adorei essa do Baru. Mas acho que você ainda continua a mesma criança, quebrando os barus com medo de ser encontrada. Achei interessante essa árvore, tudo igual: a grama a estradinha, a serra ao fundo com este céu azul, parece coisa de cinema, ou coisa de infância? O sabor continua o mesmo e você também. Continue assim. Beijos

Rosa Amélia disse...

É, só que os barus de agora são os problemões que a gente vive, mas tenho medo de ser encontrada não, aliás, até queria ser para ganhar um colo!!!
Beijin!!!

Júlio disse...

Nossa! Eu adorava mangaba, murici, borlé, angá... mas nunca fui fã do baru, embora realmente fosse uma castanha gostosa.
.
Mas quanta erudição pra dizer que baru dá pereba no cu, hein?

Rosa Amélia disse...

Sacanagem essa de dizer que baru dá pereba nesse lugar aí que eu não vou dizer o nome, porque sou uma mulher erudita!!!
kkkkkkk
Beijin,

Júlio disse...

Sei, sei, esse nariz já era empinado mesmo quando era meina comedora de baru que perguntava se as visitas se "interessavam" no café oferecido, e que dizia que queria ser Dona Rosa Doutora.

Rosa Amélia disse...

Essa história aí de ser Dona Rosa Doutora, qualquer dia, eu vou contar... Tô elaborando... Coisas de poeta incipiente....Ou será insipiente?