domingo, 23 de julho de 2017

Diálogos entre mim, Platão e Foot

https://seer.ufs.br/index.php/interdisciplinar/article/view/1136/974

As formas de amar em Grande sertão: veredas

https://www.yumpu.com/s/srgGKZbPAbXEJCmx

Dicas para uma boa produção de texto.

Posto aqui algumas recomendações retiradas de livros didáticos para se produzir um bom texto dissertativo-argumentativo. Mas vale lembrar que, mais do que regras, o que determina a originalidade de um texto e a relevância das ideias apresentadas, é a criatividade do escritor, é o modo de organização do pensamento, é o respeito às metarregras de coerência, quais sejam a unidade temática, a relação entre as ideias do texto e a progressão delas, e a não-contradição e, é, sobretudo, o conhecimento das diversas áreas articulado para defender a tese a partir da temática proposta. Beleza? Posto aqui a pedido de alunos, que, espero, façam bom proveito do material. Junto vão as duas propostas de redação dos dois últimos ENEM.

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Redação no ENEM e nos Vestibulares
Competências cobradas na prova de texto do ENEM - retiradas do site do MEC
Parte Objetiva: Produção de texto

I. Demonstrar domínio da norma culta da língua escrita.
II. Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema, dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo.
III. Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista.
IV. Demonstrar conhecimento dos mecanismos lingüísticos necessários para a construção da argumentação.
V. Elaborar proposta de solução para o problema abordado, mostrando respeito aos valores humanos e considerando a diversidade sociocultural.


Dicas
- Se você observar bem o comando das produções de texto dos vestibulares e do ENEM, verá que todas as competências aí expostas - retiradas do site do MEC - aparecem como forma de orientação. Assim, basta seguir atentamente ao comando. Que será bem sucedido.
· Planeje seu tempo.
· Leia enunciados e as instruções com bastante atenção para não cometer erros por não ter compreendido a proposta.
· Dê título à sua redação somente se for pedido. Em alguns vestibulares isso é proibido.
Para ter acesso às provas do ENEM, basta digitar no Google - Provas do ENEM - MEC. Abre-se direitinho o link

Outras dicas.
§ Evite períodos longos: podem gerar ambiguidade falta de clareza.
§ Não use gírias ou linguagem muito informal: adeque seu texto à modalidade escrita e formal.
§ Evite palavras difíceis, que possam transmitir a ideia de falsa erudição e prejudicar a compreensão do texto.
§ Não escreva palavras cuja grafia ou significado não estejam claros para você. É recomendável ter bom domínio das normas gramaticais (ortografia, acentuação, concordância, regecência).
§ Fuja de fórmulas prontas e clichês: frases como “O Brasil é o país dos contrastes.” dizem pouco.
§ Não use expressões como eu acho, eu penso: é importante você expressar sua opinião sincera, mas expressões como essas podem sugerir insegurança ou “achismos” e enfraquecer sua argumentação.
§ Evite posições extremistas: demonstre respeito por diferentes pontos de vista culturais, políticos, sociais, etc.
§ Não faça citações descontextualizadas, que não possam ser de fato integradas ao texto. Senão você corre o risco de criar uma “colcha de retalho” e prejudicar a estrutura interna da redação.
§ Recorra a elementos coesivos para relacionar termos ou segmentos de texto: sinônimos, repetição, conectivos (pronomes conjunções), sequência tempora, etc.
· Como apresentar seu texto?
§ Evite letra de forma que dificulta a distinção entre maiúsculas e minúsculas. Se usar, fique atento à legibilidade.
§ Evite rasuras: se errar uma palavra, passe um traço simples sobre ela e a reescreva.
§ Faça a prova com caneta azul ou preta, conforme as exigências do exame. Não use corretivo líquido nem escreva a lápis.
§ Fique atento ao número de linhas. Não fique aquém nem vá muito além do número estipulado, o que pode representar, no primeiro caso, falta de argumentos e, no segundo caso, dificuldade de conclusão.
§ Não se identifique. Se você rubricar, assinar a prova ou fizer qualquer sinal que o identifique, sua redação será anulada.

sábado, 22 de julho de 2017

Rosa lendo Rosa discutindo a questão do regionalismo

Por Rosa Amélia Silva
O termo regionalismo foi cunhado na literatura brasileira para designar a arte literária que se baseia em costumes e tradições regionais e que tem como uma de suas características o uso de linguagens locais. Para entender o processo de construção semântica do termo, pode-se realizar uma imersão no fenômeno literário brasileiro. Dessa forma, verifica-se a unidade entre o fazer artístico nos planos regional e universal.
Vale lembrar que, se tomarmos o conceito de regionalismo literalmente, toda arte deve ser considerada regional, uma vez que ela é sempre produzida em um contexto local. Tal consideração reflete, sobretudo, na arte literária, que tem como matéria-prima a linguagem. E por mais que a língua seja única para a  pluralidade, usada por um grupo maior, por exemplo, um país, um Estado, ela se destaca, enquanto linguagem, pela sua singularidade de uso em cada região, em cada contexto. Dessa forma, toda literatura abarca e explora uma linguagem contextual, refrata e reflete a cultura de um povo, logo não deixa de ser regional, mesmo aquelas que não são, pela crítica, considerada regional. Segundo Ribeiro (apud Candido 2008) “somos um conjunto de regiões, antes de sermos uma coleção arbitrária de Estados”. A literatura é a criação estética a partir da linguagem dentro de um panorama cultural de um povo. Mesmo sendo urbana, indianista, psicológica, realista, na literatura sempre se explorará um aspecto regional, sobretudo no que se refere à linguagem, cujo jogo estético se desenvolve tanto no conteúdo quanto na forma.
O mote, cujo retrospecto de como se institui o conceito de “regionalismo” na literatura brasileira, e como ele foi se solidificando à medida que a própria arte literária, no país, foi tomando substância durante todo o processo de colonização e, depois, de politização do Brasil; explora o entendimento de algumas características da literatura mineira e motiva a sua leitura.
Segundo Afrânio Coutinho (s/d), desde o momento em que o português chegou ao país, começou-se a produzir nova literatura, distinta da produzida na metrópole, uma vez que o homem que aqui se instalou não podia ser o mesmo homem se ele tivesse a oportunidade de ter ficado na Europa. Os seus objetivos eram outros em virtude do novo mundo, da nova região em que se encontrava e na qual passava a viver e das relações sociais que começava a travar. Não se pode dizer que os textos – até mesmos os informativos – produzidos aqui à época – fossem caracterizados pela cultura europeia. Culturas se defrontavam e culminavam numa produção distinta, com características bem peculiares. Apesar de se entender a singularidade dos textos produzidos nessa época, ainda não se caracterizava como da região a literatura produzida aqui, mesmo sabendo que a nova região em que o homem estava se inserindo contribuía para a produção, da qual também era reflexo.
Segundo Antonio Candido (2008), em relação à época colonial, não se pode ainda falar em sistema literário brasileiro, uma vez que ele não estava integralmente constituído: obra – consumidor e produtor. Havia manifestações literárias, promovidas pela singularidade da cultura que estava sendo erigida. Esse sistema foi se constituindo à medida que a história do Brasil, enquanto Estado Nacional, se edificou. Ao emergir tal sistema, meados do século XVIII, nasceram várias vertentes para caracterizar a produção literária no Brasil.
À medida que o país se consolidava politicamente e rompia com a metrópole, constituía-se novo referencial literário integrado ao registro cultural do povo brasileiro, aos seus ideais políticos e às suas singularidades linguísticas e artísticas. Engendrava-se, assim, uma nação por meio de uma identidade pátria singular: um povo, com suas peculiaridades no modo de fazer política, de fazer justiça, de comprar e vender, de cobrar tributos, de empregar a língua para a comunicação e para a representação de seus mitos, para produzir seus símbolos, seus valores, a ideologia pátrio-nacional. Tudo isso, de forma lenta e gradual, compunha a construção do fazer literário regional brasileiro.
De início, a produção se concentrou na cidade do Rio de Janeiro, porque ali se concentrava a aristocracia, talvez a única, naquele momento, capaz de fazer parte do sistema literário que se instituía, tanto como produtora quanto como consumidora. O país avança para o interior, nascem outras possibilidades de representação, além da urbana aristocracia. Entre eles, destaca-se o indianismo muito explorado na construção do autêntico mito nacional. Além dele, aparece, de forma bastante incipiente, o regionalismo, centrado na valorização do sertanejo, do homem assentado no interior do Brasil, deslocado do eixo urbano, e  singularizado cada vez mais, destacando-se pelas suas intrínsecas excentricidades, constituindo a verdadeira brasilidade.  
Ressalta-se que devido à imensa extensão territorial do Estado brasileiro, a literatura produzida em todos recônditos do país, denominada como “regional”, não apresentava as mesmas características. Escritores do regional sul expressavam e valorizavam a cultura da região, seus mitos, seus valores, pelo modo específico de uso corrente da linguagem.  No extremo norte e ou nordestino, da mesma forma, o brasileiro – mesma nacionalidade – sendo demudado, tendo outras relações, constrói-se de forma diferente. Não podia ser diferente com o brasileiro que, cada vez mais embrenhado nas regiões mais interioranas, nos campos gerais e nas minas ricas de jazidas, segundo Ribeiro (2006), compunha a cultura naturalmente brasileira. 
O regionalismo cultural se estendeu ao literário, numa tentativa de caracterizar uniformemente toda a produção literária que se realiza nas diferentes culturas do norte ao sul do Brasil. Ressalta-se, porém, que, diante dos espaços e da forma, muitas vezes, pitoresca de representação das ações humanas, as literaturas regionais revelavam-se cada vez mais distintas e diversas.
E, devido a esse fato, por vezes, foi considerada pela crítica, e até mesmo pelos próprios produtores, como subliteratura. Ideia reforçada pelo contraponto à literatura produzida nos centros urbanos, sobretudo no eixo Rio - São Paulo. Por muito tempo, esta produção foi elevada ao patamar de alta literatura, porque era capaz, pelos jogos eruditos da linguagem, de refletir os conflitos humanos mais intensos e mais complexos por meio da palavra, esteticamente elaborada e, além disso, era produzida e valorizada por quem a produzia: a elite.
E nas mãos de João Guimarães Rosa que esse jogo se transfigura. Ele demonstra ao mundo que mesmo a linguagem mais simples, e não menos complexa, pode revelar o sentimento mais intricado e imanente ao ser humano. Não é o fato de ser interiorana, distante de condições privilegiadas de formação acadêmica, que a destitui de seu caráter abrangente, assim como qualquer outra em qualquer região do Brasil e do mundo. É nesse sentido que Guimarães Rosa consegue sintetizar a universalidade pelo regional. A linguagem mineira, característica do sertanejo em suas vicissitudes, não deixa de ser completa e de alcançar o nível do extraordinário porque assim também o é. O fato de ela assim o ser – regional –  é condição sine qua non para que ela seja universal. Não no sentido de que todos a dominem, mas no sentido daquilo que ela expressa, como qualquer linguagem de qualquer outro lugar ou região: os sentimentos mais intrínsecos da natureza humana.
Para demonstrar tal ideia, cita-se um trecho de Grande Sertão: Veredas em que o autor, pela cultura regional do sertão, sobretudo, a linguística, demonstra dois dos mais velhos conflitos da humanidade: a luta interna  entre o bem e o mal, que caracteriza o paroxismo no qual o homem vive e luta para se entender; e a compreensão metafísica, que constantemente, torna caminho para o entendimento maior daquilo que transcende o ser-homem . O sobrenatural que rege o homem, o divino, explicita-se, no mesmo trecho, pelas interrogações constantes “E o que isso é?” (2001, p. 27) “Uê, uê, então?! Não sendo como compadre meu Quelemém quer, que explicação é que o senhor dava? (2001, p. 30), ao final de cada reflexão ou cada causo. Essas interrogações reportam para o irrespondível, ou para a única resposta possível: o sobrenatural como a forma possível para explicar o conflito premente no coração do homem: o paroxismo entre o bem e o mal.
Melhor se arrepare: pois, num chão, e com igual formato de ramos e folhas, não dá mandioca mansa, que se come comum, e a mandioca-brava, que mata? Agora, o senhor já viu uma estranhez?  A mandioca-doce pode de repente virar azangada – motivos não sei; às vezes se diz que é por replantada no terreno sempre, com mudas seguidas, de manaíbas – vai se amargando, de tanto em tanto, de si mesma toma peçonhas. E, ora veja: a outra, a mandioca-brava, também é que às vezes pode ficar mansa, a esmo, de se comer sem nenhum mal. E o que isso é? (...)
Nesse pequeno parágrafo João Guimarães Rosa sintetiza toda reflexão implícita nos vários causos que se apresentam na sequência do monólogo de Grande Sertão: Veredas. O escritor provou que o simbólico, o mítico, a filosófico podem se concretizar na linguagem, aparentemente simples do sertanejo, nas suas metáforas riquíssimas e muito bem elaboradas – talvez incompreensíveis para aqueles que não conhecem a cultura sertaneja. A relação dual e inexplicável, presente na natureza humana, é expressa na relação metafórica entre o homem e a planta. É comparada, implicitamente, à natureza da planta “mandioca”.
O escritor pede para que se observe e “melhor se arrepare” a estranheza que causa o fato de no mesmo chão, ou seja, na mesma terra, no mesmo mundo, nasceram plantas “iguais em formato e folhas”, as quais, metaforicamente, reportam para os homens, iguais em tudo, em seu caráter físico, psicológico, social e até espiritual. Contudo esse homem, igualmente assinalado, pode se revelar bom em alguns momentos e em outros, ser mal, de todo mal. Para construir tal relação, o autor apresenta as características da planta “mandioca” que poucas pessoas conhecem: o fato de ela ser “azangada” ou “doce”.
Na primeira situação, ela não é comestível, uma vez que contém o ácido cianídrico, elemento químico venenoso que, ao cair na corrente sanguínea e estabelecer contato com o ferro presente na hemoglobina, bloqueia a passagem de oxigênio, matando a pessoa por sufocamento.  Tal descrição  pode ser relacionada ao comportamento das pessoas que são más; pois, ao serem dessa forma, sufocam a si mesma e aos outros, deixando-as amargas sem  prazer de viver, sem o bem-estar.
Do contrário, sendo a pessoa do bem, mansa, expressa na natureza da “mandioca-doce”, própria para o alimento do corpo, tal relação reporta para o comportamento da pessoa do bem, que assim sendo, alimenta a alma. Contudo, o estado de bondade ou de maldade não  é continuamente perene. O sentir o bem e o mal, o devir da natureza humanda alternam essa condição entre ser do bem  e não ser do bem,  preciosamente elaborada na obra de Guimarães Rosa, a partir da expressão “replantada no terreno sempre, com mudas seguidas, de manaíbas – vai se amargando, de tanto em tanto”. Acrescenta ainda que o dualismo está presente na obra de Guimarães, desde o título Grande Sertão: Veredas, que alude à a natureza macro do sertão e para a natureza micro das veredas, até a condição ambígua que constitui um conflito existencial para o homem. O duplo: um  e outro, o devir e não devir, o micro e o macro, o bem e o mal, Deus e o diabo, um no outro instaura a vida humana num movimento crescente de ser e não-ser
O ser do bem e o não-ser do bem constituem o devir humano por meio de suas experivências. As experiências humanas que de forma singular contribuem para a alternância entre exercer o bem ou mal está expresso em “replantada no terreno sempre, com mudas seguidas,(...) amargando-se, de tanta em tanta, que de si mesma toma as peçonhas”. Assim como o veneno quando injetado no corpo humano torna-se antídoto para a doença, as ações ruins continuamente praticadas pelo homem  pode gerar nela o seu oposto, torná-lo homem bom, melhor, sendo no exercício do ser e do não-ser bom, no exercício do sofrimento que ser o mal nos causa, ou aguça mais ainda a ruindade que se aloja dentro do homem.
Para comprovar a filosofia da alternância do bem e do mal constituinte da existência e dos conflitos humanos, João Guimarães Rosa apresenta vários causos, à moda das rapsódias gregas. Seguem-se dois. O primeiro exemplifica, na alma humana, a presente alternância entre o ser do bem e o ser do mal, e partir de experiências que culminam com a vitória o ser-bom.  O segundo demonstra o aguçado sentir-se do mal (ou do bem em outras situações, por exemplo, o caso de Maria Mutema), que de tanto se repetir como experivivência, torna o homem cada vez mais perverso.
O senhor ache e não ache. Tudo é e não é... Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho e bom pai, e é bom amigo de amigo-de-seus-amigos! Sei desses. Só que tem os depois – e Deus, junto. Vi muitas nuvens.
(...) Olhe um chamado Aleixo, residente de légua do Passo do Pubo, no da-Areia, era o homem de maiores ruindades calmas que já se viu. Me agradou que perto da casa dele tinha um açudinho, entre as palmeiras, com traíras, pra-almas de enormes, desenormes, ao real, que receberam fama; o Aleixo dava de comer a elas, em horas juntas, elas se acostumaram a se assim de locas, para papar, semelhavam ser peixes ensinados. Um dia, só por graça rústica, ele matou um velhinho que por lá passou, desvalido rogando esmola. O senhor não duvide – tem gente, neste aborrecido mundo, que matam só pra ver alguém fazer careta... Eh, pois, empós, o resto o senhor prove: vem o pão, vem a mão, vem o são, vem o cão. Esse Aleixo era homem afamilhado, tinha filhos pequenos; aqueles eram o amor dele, todo, despropósito. Dê bem, que não nem um ano estava passado, de se matar o velhinho pobre, e os meninos do Aleixo adoeceram. Andaço de sarampão, se disse, mas complicado; eles nunca saravam. Quando, então, sararam. Mas os olhos deles vermelhavam altos, numa inflama de sapiranga à rebelde; e susseguinte – o que não sei é se foram todos duma vez, ou um logo e logo outro e outro – eles restaram cegos. Cegos, sem remissão de um favinho de luz dessa nossa! O senhor imagine: uma escadinha – três meninos e uma menina – todos cegados. Sem remediável. O Aleixo não perdeu o juízo; mas mudou: ah, demudou completo – agora vive da banda de Deus, suando para ser homem bom e caridoso em todas suas horas da noite e do dia. Parece até que ficou o feliz, que antes não era. Ele mesmo diz que foi um homem de sorte, porque Deus quis ter pena dele, transformar para lá o rumo da sua alma.
(...) Mire e veja: se me digo, tem um sujeito Pedro Pindó, vizinho daqui mais seis léguas, homem de bem por tudo em tudo, ele e a mulher dele, sempre sido bons, de bem. Eles têm um filho duns dez anos, chamado Valtêi – nome moderno, é o que o povo daqui agora aprecêia, o senhor sabe. Pois essezinho, essezim, desde que algum entendimento alumiou nele, feito mostrou o que é: pedido madrasto, azedo queimador, gostoso de ruim de dentro do fundo das espécies de sua natureza. Em qual que judia, ao devagar, de todo bicho ou criaçãozinha pequena que pega; uma vez, encontrou uma crioula benta-bêbada dormindo, arranjou um caco de vidro, lanhou em três pontos a popa da perna dela. O que esse menino babeja vendo, é sangrarem galinha ou esfaquear porco. – “Eu gosto de matar...” – uma ocasião ele pequenino me disse. Abriu em mim um susto; porque: passarinho que debruça – o vôo já está pronto! Pois, o senhor vigie: o pai, Pedro Pindó, modo de corrigir isso, e a mãe, dão nele, de miséria e mastro – botam o menino sem comer, amarram em árvores no terreiro, ele nú, nuelo, mesmo em junho frio, lavram o corpinho dele na peia e na taca, depois limpam a pele dele do sangue, com cuia de salmora. A gente sabe, espia, fica gasturado. O menino já rebaixou de magreza, os olhos entrando, carinha de ossos, encaveirada, e entisicou, o tempo todo tosse, tossura da que puxa secos peitos. Arre, que agora, visível, o Pindó e a mulher se habituaram de nele bater, de pouquinho em pouquin, foram criando nisso um prazer feio de diversão – como regulam as sovas em horas certas confortáveis, até chamam gente para ver o exemplo bom. Acho que esse menino não dura, já está no blimbilim, não chega para a quaresma que vem... Uê, uê, então?! Não sendo como compadre meu Quelemém quer, que explicação é que o senhor dava? (2001, p 27-30)
O homem inventa palavras, usa-as criativamente, numa tentativa de capturar um sentimento, um conflito, um ato, um fato. Ele se reconhece um inventor constante, porque as palavras não abrangem a constância crescente do humano. Em um momento, flagra-se um sentir por meio de palavra. No sequente, a mesma palavra revela-se insuficiente para designar o sentir. O sentir é que esconde a palavra, envolve-na, ofusca-na. E ela precisa, pela mão do poeta, repalavrear-se, renovar-se ou (re)buscar os conteúdos aprisionados e ofuscados na constância cristalizada dos sentidos e das formas. O jogo estético entre o conteúdo e a forma renova os sentidos expressos pelo poeta. E o homem, sobretudo o poeta, na sua incompletude, busca na e pela palavra compreender-se, compreender o outro e o mundo, para se sentir salvo.
Nos causos rapsódicos que compõem a grande obra de João Guimarães Rosa “Grande Sertão: Veredas”, pode se observar essa alternância entre o bem e mal na conduta do ser humano. O mal replantado em constâncias revividas revela o ser humano perverso, como se percebe na estória de Pedro Pindó. E, na mesma medida, replantado e revivido, pode tornar o vivente outro ser, com diverso sentir e outros valores.
Retomando a reflexão inicial de que a extensão territorial do país impede a uniformização da caracterização da literatura regional brasileira, ressalta-se que tal fato constituiria um erro, porque a literatura, como se afirmou inicialmente, abarca e explora uma linguagem contextual, refrata e reflete a cultura de um local, e não se pode exigir que, em um país continental como é o Brasil, haja uma produção cultural unificada. E acrescenta-se a isso o fato errôneo de se qualificar uma produção em detrimento de outra. Todas têm o valor estético imanente à linguagem, à cultura regional. 
Ademais, considera-se que a produção artística, sobretudo a literária cuja matéria prima é a linguagem, engendra-se no limbo entre o regional e o nacional, o particular e o universal. Segundo Candido (2008), a obra de arte é fruto da iniciativa individual ou das condições sociais, quando na verdade ela surge na confluência de ambas, indissoluvelmente ligadas: particular e o coletivo, o regional e o nacional, o singular e o universal. O fato de se explorar aspectos regionalistas, como linguagem, princípios, ideologias, não descaracteriza o aspecto universal da literatura. Aliás, poderá, ao contrário, reforçá-lo, uma vez que a ênfase na (re)criação apresenta novos contornos ao que já se consolidou como linguagem, princípios, ideologias renovando-os enquanto representação e experivivência.
 A linguagem, a posse da palavra, o seu uso - criativo ou pragmático -, é um bem cultural universal, que carrega suas peculiaridades regionais, sem dúvida. Mas como bem comum – de todos – não impõe limites na sua (re)criação. Não é o fato de ser regional que a faz menor, do contrário é o fato de ser regional, particular que contribuí para a construção harmônica do complexo e do universal. E João Guimarães Rosa é exímio exemplo dessa ordem, que se transfigura num processo cíclico entre o regional e o universal, bem demonstrado nos fragmentos rapsódicos retirados do seu Grande Ser Tão: Veredas, ou seja, João Guimarães: Rosa.  
Bibliografia
CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. Rio de Janeiro: Ouro sobre o azul,  2008.
COUTINHO, Afrânio. Conceito de literatura brasileira. São Paulo: Ediouro s/d.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. A formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras:  2006.
ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas.  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
SILVA, Rosa Amélia P. Ler literatura: o exercício do prazer. Dissertação de mestrado defendida no departamento de Teoria Literária e Literatura – Universidade de Brasília, 2009.
BAKHTIN, Michael Mikhailovitch. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1922.
______. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Anna Blume, 2002.
______. Questões de literatura e estética: a teoria do romance. São Paulo: Anna Blume, 2002.
______. Para a filosofia do ato. [S.n.t.].
http://pt.wikipedia.org/wiki/Mandiocaost

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Demagogia do Cristovam...

Segundo Cristovam Buarque, a educação que se faz hoje terá reflexo na sociedade de amanhã. Concluindo, então: É por isso que o Brasil é o que é hoje, por isso que temos os políticos que temos hoje? Sem escrúpulos, corruptores e corruptíveis? Isso significa o quê em relação à educação que lhes foi dada? Quer culpar a educação por suas imoralidades, Cristovam???? Vai ser menos político e mais professor, por favor! Preciso dizer mais alguma coisa? Odeio político demagogo...

Minereisss

Hoji deu um vontade deu iscrevê das minha origi
Gosto tanto das Minas Gerais qui nem sei pruonde comecá.
Falá o que daquele lugá?
Tudo de bão quantu há pode ocê procurá
Que lá ocê vai achá.
Gente trabaiadeira, homi honesto,
Muié bonita e inteligente tamém, uai,
Pro mode que ser bonita só, pra nóis, não é soficiente.
Nóis, muié mineira, temo muita corage,
gostemo de falá difícir, eu sô a prova..
Só ocê verificá o meu vocabular!
Né carquer coisa que deixa nóis incabulada naum...
Pra incabulá nóis tem qui ser coisadi istraordinara.
Oia só.
Tava pensano nas cantigas de mininu que nóis cantava lá na roça.
Fui no tororó, bebê água, não achei... Eu achei foi aqueli mininu que no tororó Deixei.



Declaração de amor à Diadorin

           João Guimarães Rosa in: Grande Sertão Veredas. 
       
Aquele lugar, o ar. Primeiro, fiquei sabendo que    gostava  de Diadorim –  de amor   mesmo   amor,   mal  encoberto  em       amizade. Me  a  mim, foi de repente, que     aquilo se  esclareceu: falei comigo. Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei – na hora. Melhor  alembro ( 407  ).
O nome de Diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em mim.  Me  abracei  com  ele.  Mel  se  sente  é  todo  lambente  – “Diadorim, meu amor...” Como era que eu podia dizer aquilo? (408) E  como  é  que  o  amor desponta (215). Coração  cresce  de  todo  lado.  Coração  vige  feito  riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração  mistura  amores.  Tudo  cabe (259). E  eu  –  como é que posso explicar ao senhor o poder de amor que eu criei? Minha vida o diga. Se amor? Era aquele latifúndio. Eu ia com ele até o rio Jordão... Diadorim tomou conta de mim (266) E  de  repente  eu estava gostando dele, num descomum, gostando ainda mais do que antes, com meu coração nos pés, por pisável; e dele o tempo todo eu tinha gostado. Amor que amei  – daí então acreditei. A pois, o que sempre não é assim? (332).
Explico  ao  senhor:  como  se  drede  fosse  para  eu  não  ter vergonha  maior,  o  pensamento  dele  que  em  mim  escorreu figurava  diferente,  um  Diadorim  assim  meio  singular,  por fantasma, apartado completo do viver comum, desmisturado de todos, de todas as outras pessoas – como quando a chuva entre-onde-os-campos.  Um  Diadorim  só  para  mim.  Tudo  tem  seus mistérios.  Eu  não  sabia.  Mas,  com  minha  mente,  eu  abraçava com meu corpo aquele Diadorim-que não era de verdade. Não era? A ver que a gente não pode explicar essas coisas (409). Deus  é  que  me  sabe (439). 
O  Reinaldo era Diadorim – mas Diadorim era um sentimento meu (438). Aquilo  me  transformava,  me fazia  crescer  dum  modo,  que  doía  e  prazia.  Aquela  hora,  eu pudesse morrer, não me importava (409). Diz-que-direi  ao  senhor  o  que  nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer  que  isso  seja,  e  vai,  na  ideia,  querendo  e  ajudando; mas, quando  é  destino  dado,  maior  que  o  miúdo,  a  gente  ama inteiriço  fatal,  carecendo  de  querer,  e  é  um  só  facear  com  as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois (189). Tudo turbulindo. Esperei o que vinha dele. De um aceso, de mim eu sabia: o que compunha minha opinião era que eu, às loucas, gostasse de Diadorim, e também, recesso dum modo, a raiva incerta, por ponto de não ser possível dele gostar como queria, no honrado e no final. Ouvido meu retorcia a voz dele. Que mesmo, no fim de tanta exaltação, meu amor inchou, de empapar todas  as  folhagens,  e  eu  ambicionando  de  pegar  em Diadorim, carregar Diadorim nos meus braços, beijar, as muitas demais vezes, sempre (47). Abracei Diadorim, como as asas de todos os pássaros (50). Diadorin é minha neblina... (50 ) amor é a gente querendo achar o que é da gente (510).
  O  que brotava em mim e rebrotava: essas demasias do coração(528). Meu  corpo  gostava  de Diadorim.  Estendi  a  mão,  para  suas  formas;  mas,  quando  ia, bobamente,  ele  me  olhou  –  os  olhos  dele  não  me  deixaram. Diadorim, sério, testalto. Tive um gelo. Só os olhos negavam. Vi –  ele  mesmo  não  percebeu  nada.  Mas,  nem  eu;  eu  tinha percebido? Eu estava me sabendo? Meu corpo gostava do corpo dele, na sala do teatro. Maiormente. As tristezas ao redor de nós, como quando carrega para toda chuva. Eu podia pôr os braços na testa, ficar assim, lorpa, sem encaminhamento nenhum. Que é que queria? Não quis o que estava no ar; para isso, mandei vir uma idéia de mais longe. Falei sonhando: – “Diadorim, você nãotem,  não  terá  alguma  irmã,  Diadorim?”  –  voz  minha;  eu perguntei.
Sei lá se ele riu? O que disse, que resposta? Sei quando a amargura  finca,  o  que  é  o  cão  e  a  criatura.  De  tristeza,  tristes águas, coração posto na beira. Irmã nem irmão, ele não tinha: – “Só  tenho  Deus,  Joca  Ramiro...  e  você,  Riobaldo...”  –  ele declarou.  Hê,  de  medo,  coração  bate  solto  no  peito;  mas  de alegria ele bate inteiro e duro, que até dói, rompe para diante na parede (250/1).
Ah,  mas  falo  falso.  O  senhor  sente?  Desmente?  Eu desminto. Contar é muito, muito dificultoso. Não pelos anos que se já passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas – de fazer balancê, de se remexerem dos lugares. O que eu falei foi exato? Foi. Mas teria sido? Agora, acho que nem não. São tantas horas de pessoas, tantas coisas em tantos tempos, tudo miúdo recruzado (253/4).
Medo de errar. Sempre tive. Medo de errar é que é a minha paciência. Mal. O senhor fia? Pudesse tirar de  si  esse  medode-errar, a gente estava salva. O senhor tece? Entenda meu figurado. Conforme lhe conto: Gostar ou não gostar, isso é coisa diferente. O sinal é outro. Um ainda  não  é  um:  quando  ainda  faz  parte  com  todos.  Eu  nem sabia. (254/5)
 Mas, pensar na pessoa que se ama, é como querer ficar à beira  d’água, esperando que o riacho, alguma hora, pousoso esbarre de correr (510/11)    Diadorim, de  meu amor – põe o pezinho em cera branca, que eu rastreio a flor de tuas passadas (610).       
 Aquela Mulher não era má, de todo. Pelas lágrimas fortes que esquentavam meu rosto e salgavam minha boca, mas que já frias    rolavam.  Diadorim,  Diadorim,  oh,  ah,  meus-buritizais levados de verdes... Buriti, do ouro da flor... E subiram as escadas com ele, em cima de mesa foi posto. Diadorim, Diadorim – será que  amereci    por  metade?  Com  meus  molhados  olhos  não olhei bem – como que garças voavam... E que fossem campear velas ou tocha de cera, e acender altas fogueiras de boa lenha, em volta do escuro do arraial...
Sufoquei,  numa  estrangulação  de  dó.  Constante  o  que  a Mulher disse: carecia de se lavar e vestir o corpo. Piedade, como que ela mesma, embebendo toalha, limpou as faces de Diadorim, casca de tão grosso sangue, repisado. E a beleza dele permanecia, só  permanecia,  mais  impossivelmente.  Mesmo  como  jazendo assim,  nesse  pó  de  palidez,  feito  a  coisa  e  máscara,  sem  gota nenhuma.  Os  olhos  dele  ficados  para  a  gente  ver.  A  cara economizada,  a  boca  secada.  Os  cabelos  com  marca  de        duráveis... Não escrevo, não falo!  – para assim não ser: não foi, não é, não fica sendo! Diadorim...
Eu dizendo que a Mulher ia lavar o corpo dele. Ela rezava rezas  da  Bahia.  Mandou  todo  o  mundo  sair.  Eu  fiquei.  E  a Mulher abanou brandamente a cabeça, consoante deu um suspiro simples. Ela me mal-entendia. Não me mostrou de propósito o corpo.
E disse...
Diadorim  –  nu  de  tudo. 
E  ela  disse:  –  “A  Deus  dada. Pobrezinha...”
E disse. Eu conheci! Como em todo o tempo antes eu  – não  contei  ao  senhor  –  e  mercê  peço:  –  mas  para  o  senhor divulgar comigo, a par, justo o travo de tanto segredo, sabendo somente no átimo em que eu também só soube... Que Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita... Estarreci. A dor não pode mais do que a surpresa. A coice d’arma, de coronha...
Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; e levantei mão para me benzer – mas com ela tapei foi um  soluçar,  e  enxuguei  as  lágrimas  maiores.  Uivei.  Diadorim! Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucuia, como eu solucei meu desespero.  
O senhor não repare.  Demore, que eu conto. A vida da gente nunca tem termo real.
Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável: abaixei meus olhos. E a Mulher  estendeu  a  toalha,  recobrindo  as  partes.  Mas  aqueles olhos  eu  beijei,  e  as  faces,  a  boca.  Adivinhava  os  cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata... Cabelos que, no só ser, haviam de dar para baixo da cintura... E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:
 – “Meu amor!...”
Foi assim.  Eu tinha me debruçado na janela, para poder não presenciar o mundo. A Mulher lavou o rpo, que revestiu com a melhor peça de roupa que ela tirou da trouxa dela mesma. No peito, entre as mãos postas, ainda depositou o cordão com o escapulário que tinha sido meu, e um rosário, de coquinhos de ouricuri e contas de  lágrimas-de-nossa-senhora.  Só  faltou  –  ah!  –  a  pedra-de-ametista,  tanto  trazida...  O  Quipes  veio,  com  as  velas,  que acendemos em quadral. Essas coisas se passavam perto de mim. Como  tinham  ido  abrir  a  cova,  cristamente.  Pelo  repugnar  e revoltar, primeiro eu quis:  –  “Enterrem  separado  dos  outros, num aliso de vereda, adonde ninguém  ache,  nunca  se  saiba...” Tal que disse, doidava. Recaí no marcar do sofrer. Em real me vi,  que  com  a  Mulher  junto  abraçado,  nós  dois  chorávamos extenso.  E  todos  meus  jagunços  decididos  choravam.  Daí, fomos,  e  em  sepultura  deixamos,  no  cemitério  do  Paredão enterrada, em campo do sertão.
Ela tinha amor em mim.
E aquela era a hora do mais tarde. O céu vem abaixando. Narrei ao senhor. No que narrei, o senhor talvez até ache mais do que eu, a minha verdade. Fim que foi.
Aqui a estória se acabou. Aqui, a estória acabada. Aqui a estória acaba. (860/3). 
João Guimarães Rosa in: Grande Sertão Veredas.