sexta-feira, 27 de abril de 2018

Outro desabafo

Por Rosa Amélia
Hoje, gente, fiquei muito triste... aliás, ando muito triste com os retrocessos que acontecem no Brasil. Os pobres cada vez mais pobres... Hoje fui à Saga deixar o meu carro para realizar um procedimento de revisão que leva o dia todo,  voltei para casa de buzão... adoro andar de buzão... sempre tive amor a essa experiência porque ela me lembra da minha chegada a Brasília. Ao descer a pé para a rodoviária, meu coração enterneceu... havia, em frente ao Conjunto Nacional e também na rodoviária, um monte de fiscal e colaborador da Agefis atacando os ambulantes como se fossem urubus na carniça. Mais  triste ainda era observar no rosto deles o prazer de uma hiena ao realizar o ataque aos pobres trabalhadores informais. Peguei o meu ônibus e, no silêncio da multidão alvoroçada, fiquei com o coração apertado, sentindo uma tristeza que só senti quando cheguei a BsB, por volta de 20 anos atrás, ao observar a quantidade enorme de pedintes nas ruas, a quantidade de gente correndo da Agefis, a quantidade de pessoas nos semáforos vendendo coisas ou fazendo malabarismos. Bateu aquela mesma tristeza de 20 anos atrás no meu peito, quando isso era constante, quando o governo não tinha nenhuma política de inclusão para essas pessoas. Mais uma vez me certifiquei de que os menos, muito menos mesmo, favorecidos, no Brasil, não têm tido nenhum espaço na sociedade, nem mesmo a possibilidade de lutar para sair da pobreza econômica, que é, infelizmente, a que mais pesa na vida das pessoas. Senti uma tristeza enorme, porque, quando cheguei a BsB, ainda nos governos do PSDB, era o que se via nas ruas: muita pobreza... e eu sempre sentia muita tristeza em perceber isso. E, hoje, infelizmente, parece que a condição de exclusão do brasileiro está de volta. Um sentimento de impotência, uma vontade de chorar, de gritar as injustiças, de ser um Antônio Conselheiro na vida dessas pessoas, uma vontade de fazer alguma coisa; mas, entremeada a isso, veio uma sensação de inércia, de vazio, de solidão, de que não posso muito ou quase nada contra as forças políticas que aí avançam. Fiz esse desabafo a um amigo e ele me lembrou este poema lindo, romântico e realista, ao mesmo tempo, do Drummond...

A FLOR E A NÁUSEA, ROSA DO POVO,
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erra, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de l9l8 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar,   galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

A ética masculina na Utopia de Morus


Por Rosa Amélia
Parafraseando Rousseau (2005), o homem, movido por suas necessidades básicas, organizou-se em pequenas sociedades, movido pelos desejos de poder, ter e exibir-se, desenvolveu a linguagem. Assim, pode-se dizer que, a partir da linguagem, ele inventou um mundo, criou narrativas que o justificassem, criou a filosofia que o explicasse. Entre a invenção do mundo, a criação da linguagem, das narrativas míticas e o fazer filosófico, muito mundo aconteceu, muita história sucedeu e o homem, apesar de tanta evolução cognitiva e intelectual, demonstra-se insatisfeito com aquilo que criou a partir da linguagem, com aquilo que ele explica a partir da linguagem. Nasce assim, o desejo daquilo que não há, nasce o desejo por um mundo ideal. Nascem, gradativamente, as utopias, uma aqui outra acolá, mas todas revelando esse desejo intrínseco da alma humana de uma vida pacífica e na glória de um possível criador. Nas palavras de Berlin, (1991: 30) as utopias apontam para a realização humana em sua totalidade.
A concepção de Utopia, apresentada no dicionário de Filosofia, baseada nas ideias de Morus, é a representação “sob a forma de uma descrição pormenorizada e concreta” (Lalande: 1996, 1184), de uma organização ideal para uma sociedade humana. Tal idealização passa por conceber a sociedade de forma perfeita: sábia, poderosa e feliz, “graças as instituições ideais de que goza” (idem, ibidem). Dessa forma, as utopias, de um modo geral, por seu caráter humanístico, foram e ainda são consideradas as sociedades que estimam e vivem, em plenitude, a igualdade entre os seres humanos. Os ideais e a cultura, se passam por algum conflito, não conduzem os homens para a guerra e todos os cidadãos zelam pela harmonia entre si.
Partindo da vida real, observa-se, dessa forma, que a Utopia é, então, o não-lugar, por sua impossibilidade de se concretizar como lugar real, uma vez que, considerando a história da humanidade e o caráter do ser humano, é praticamente impossível a constituição de uma sociedade justa, exceto no plano da idealização. As Utopias, enquanto mito da cidade ideal, nascem dos anseios de alguns humanistas, em relação a uma sociedade justa; toma corpo enquanto texto, no sentido de representar uma realidade almejada e torna-se um modelo, por exemplo a Utopia de Morus, sobretudo porque explora, a partir de uma descrição tão minuciosa, os anseios: uma sociedade justa e do bem para todos homens e mulheres. Contudo, vale lembrar, considerando a postura política de Morus e o seu envolvimento com questões sociais da sua época, que a sua Utopia pode ser compreendida como uma crítica tanto à sociedade daquela época, quanto aos desejos dos humanistas do século XV que viviam sob a égide da opressão e buscavam a libertação, nem que fosse por meio da expressão utópica.
As utopias são sempre complexas, polissêmicas, opulentas. Justamente devido à tal riqueza, é praticamente impossível uma leitura unilateral e objetiva. As utopias, sobretudo devido ao seu caráter plural, são filosóficas e literárias simultaneamente. Por sua essência idealista, elas revelam o completo inconformismo do homem diante da vida concreta, elas revelam o desejo pela justiça, pela equidade, a vontade do equilíbrio, por isso mesmo são apenas modelos, ou seja, são o não-lugar. Tal desejo constante de equidade e a incompletude que move o homem são características na humanidade inferidas a partir de qualquer sociedade, mas que não se realizam de fato, justamente em face da ambiguidade humana: a guerra e a paz, o amor e o ódio, a violência e a brandura.
Compreende-se que as conquistas dos homens em torno da busca da paz e da justiça não se constituem de forma plena. Do ponto de vista existencial, nem pode assim se constituir. Mas, analisando a história do homem, observa-se que, em alguns momentos históricos, a humanidade avança em algumas conquistas que dizem respeito às particularidades humanas; outras que dizem respeito a sua sociedade: uma ligada a outra, de forma complementar. Ao considerar que toda a humanidade seria contemplada com as virtudes das utopias, observa-se que, ao escrevê-la, Morus revela, centrado no não-lugar, na verdade, uma crítica às sociedades, ao seu modo de ser, uma vez que, sendo o não-lugar, não é possível esse lugar ser, existir.
Considerando a condição ontológica, a luta do homem tem sido constante no sentido de alcançar e viver plenamente alguns sentimentos e direitos, por exemplo, o direito ao exercício particular da sexualidade, o direito social ao trabalho, à diversidade da família e à distribuição de renda, ao sentimento do amor, da solidariedade, da compaixão, da fraternidade, do bem e da justiça. Nos altos e baixos das sociedades humanas, caminham homens e mulheres nessa luta diária para suprimir os conflitos existenciais particulares e coletivos e viver o bem e a justiça de forma cabal. Contudo, vale ressaltar que os conflitos que se referem especificamente ao gênero masculino não são similares aos femininos e estes frequentemente são atropelados em detrimento daqueles.
As narrativas míticas da origem do mundo, a terra, Gaia, revelam um princípio e sua origem no feminino, mesmo que se observe que a humanidade tem sido conduzida por uma ética masculina desde sempre. Contrapondo a ética masculina à feminina dentro as utopias, diante do que este gênero filosófico-literário representa, ressaltam-se dois mundos distintos: um utópico, engendrado pelas buscas existenciais e pela inconformação do masculino; outro mais centrado na realidade da ilha da Utopia e na sua construção, que se refere ao feminino. A utopia é um gênero literário filosófico que privilegia os homens, assegura Fortunati (2006, tradução própria). A utopia, apesar de ser um nome feminino, é ideologicamente masculina, criada por Utopus, um rei idealista e, como o próprio gênero aponta, masculino.
O primeiro indício de que a Utopia, ideologicamente, está enraizada no masculino relaciona-se à origem da ilha: o idealizador da ilha é um rei – masculino – que cria uma cidade fixada numa ilha – feminino. Essa marcação ideológica passa pela linguagem que, durante toda a descrição, registra querências e não querências masculinas, conforme se observa no exemplo a seguir em que se descreve como se glorifica um homem do bem na Utopia:
“Erguem em praças públicas estátuas para homens eminentes que foram dignos do Estado, ao mesmo tempo para perpetuar a lembrança de suas obras e para que a glórias dos antepassados sirva de estímulo a seus descendentes para fazer o bem” (Morus: 1997, 127).

A voz que narra, que compõe, que edifica a cidade utópica nada mais é que aquela que representa a ideologia patriarcal vigente. É bem verdade que, desde os primórdios, foi estabelecida uma diferença gigantesca entre os gêneros. Ela, a princípio, era de toda ordem.  Nas sociedades antigas, as mulheres eram consideradas seres incapazes de aprender, em outras eram comparadas a animais. Na filosofia antiga, a mulher era considerada apenas um repositório para o gozo masculino e, com isso, gerar filhos, um receptáculo para receber do homem a continuação da vida. Na era medieval, a mulher foi associada à loucura, por ter suas características associadas à irracionalidade, à libidinosidade e à luxúria, foi acusada de bruxa quando demonstrava algum conhecimento específico relacionado à cura por meio das ervas.
As mulheres já foram propriedades, já foram subservientes, já foram escravas, já foram esposas submissas e até hoje, em alguns casos, continuam assim sendo. Para Carvalho (apud Farah, 2004), as diferenças entre homens e mulheres são enfatizadas, estabelecendo-se uma polaridade entre masculino e feminino, produção e reprodução e público e privado. Para o feminismo da diferença, o poder concentrar-se-ia na esfera pública, estando nessa polaridade a origem da subordinação das mulheres. Na Utopia, reconhece-se essa polaridade fincada na ordem pública. A submissão da mulher ao homem se revela, sobretudo, nos ambientes públicos sociais, nos cultos religiosos, nas realizações festivas, na divisão das tarefas comunitárias, conforme se verifica na citação seguinte em que se observa a mulher numa posição sempre detrás, ou seja, posição de inferioridade e subserviência.
...ao entrarem no templo, os homens se dirigem para a direita, as mulheres para a esquerda, de modo que se os membros masculinos da família estejam sentados diante do pai e que a mãe esteja atrás do grupo de mulheres.
Não se pode negar que, na Utopia, considerando todo o contexto em que está inserida a obra, Morus tenha dado ao feminino muito além daquilo que as mulheres tinham, por exemplo, a condição de estudar. Isso aponta para o reconhecimento das qualidades intelectuais do feminino. Nesse sentido, Morus constrói uma narrativa apontando para a possibilidade de emancipação intelectual do feminino. A narrativa de Morus, além de ressaltar a capacidade intelectual do feminino, destaca a condição do feminino de exercer funções militares e de trabalho.
Eles se submetem permanentemente e em dias determinados à disciplina militar, não somente aos homens, mas também às mulheres, a fim de estarem preparados para a guerra, se for indispensável (132).
Compreende-se, assim, que Morus eleva a mulher para outra categoria social, diferente da realidade vivida no século em que o texto foi escrito. Contudo, ao elevar a mulher a essa nova categoria de estudante e trabalhadora, Morus não propõe a divisão das responsabilidades domésticas com o homem. “A cozinha, o preparo de alimentos e a ordem da refeição são incumbência exclusiva de mulheres, cada família enviando de cada vez as suas” (90). Tal fato aponta para a predominância de uma ética masculina, mesmo num texto em que se busca apresentar ideias de igualdade entre todos os seres humanos.
Além das obrigações domésticas que lhe cabem, praticamente por uma imposição arbitrária, social e masculina, a mulher pode, em alguns casos, e deve, em outros, assumir outras responsabilidades: a intelectual, o trabalho doméstico e a guerra. À mulher é dada a possibilidade de estudar a arte do seu ofício ou do que for de seu interesse, à mulher é concedido o direito de acompanhar o marido nos cultos religiosos e se colocar à direita/esquerda do sifogrante, à mulher é dada à condição de trabalhar. Todas essas prerrogativas masculinas são dadas ao feminino, elevando a sua condição social; contudo nenhuma atribuição de caráter feminino é compartilhada de alguma forma com os homens, tanto é que Morus afirma que, em outras palavras, que os trabalhos domésticos são obrigação exclusiva de mulheres. Isso demonstra como a ética masculina reina na construção da ideologia utópica de Morus.
 O estudo – aprendizagem – relacionado ao ofício/trabalho também é uma obrigação “Todos, homens e mulheres, sem exceção, são obrigados a aprender um ofício...” (idem, 79), “uma única atividade é comum a todos, homens e mulheres: a agricultura, que ninguém pode ignorar” (idem, 78).  Nota-se uma relativa igualdade entre os gêneros. Destaca-se tal relatividade, uma vez que as responsabilidades femininas relacionadas ao trabalho doméstico, à criação dos filhos continuam sendo apresentadas como competências femininas subordinadas a lei masculina, conforme se verifica nas passagens “As mulheres submetem-se a seus maridos, os filhos a seus pais e, de maneira geral, os mais jovens aos mais velhos” (idem, 87-8) e “Os maridos punem as mulheres; os pais punem seus filhos, a menos que uma falta muito grave exija reparação pública” (idem, 126).
As utopias tradicionais, como se observa em Morus, são, nas palavras de Fortunaty, “a repetição de mitos e costumes das sociedades patriarcais” (2006, 2). Nas utopias tradicionais, devido a questões morais do seu tempo, não há uma outra alternativa melhor para a mulher, exceto aquela pensada a partir de valores éticos masculinos. Isso pode ser verificado na passagem em que Morus coloca as preocupações masculinas e aponta as queixas das mulheres como algo que importuna o espírito do homem, impedindo-o de viver uma vida livre e feliz:
Há riqueza maior do que viver sem nenhuma preocupação, com o espírito livre e feliz, sem inquietar-se com o pão, sem ser importunado pelas queixas de uma esposa, sem temer a pobreza para um filho, sem se atormentar com o dote de uma filha? Poder contar com os recursos e a felicidade dos familiares, mulher, filhos e netos, e até a mais longa posteridade que um nobre pudesse desejar? (Morus: 1997, 161).
Mesmo considerando o tempo em que foi escrito, mesmo considerando que avanços propostos em relação à participação da mulher na sociedade em relação ao trabalho, ao estudo, à participação permitida na guerra, à participação consentida e acompanhada por homens nos altares religiosos, há muito o que se questionar em relação à participação da mulher na construção da Utopia de Morus, sobretudo no que se refere à autonomia e à participação,  já no século XV, no campo profissional e social quase como uma exigência para o feminino, que não se estabelece para o masculino.
A mulher acumula as suas obrigações relacionadas aos trabalhos domésticos associadas às outras que Morus lhe dá como se fossem prêmio. Observa-se que, para o serviço militar, não há alternância de envio das mulheres e muito menos alternância de responsabilidades quanto aos serviços domésticos.
Eles se submetem permanentemente e em dias determinados à disciplina militar, não somente os homens, mas também às mulheres, a fim de estarem preparados para a guerra, se for indispensável (idem, 132).
Inclusive, afirma-se que a mulher pode, se for treinada, fazer quaisquer serviços que competiam aos homens em decorrência de sua força física, traço que o distingue do gênero feminino.   Em relação ao exercício da sexualidade, à condição para o casamento, a mulher tem a prerrogativa de se casar mais cedo que o homem e é cobrada da mesma forma quando se trata de punição em relação às traições ou amores sem compromisso, clandestinos.
Uma moça não se casa antes dos vinte e dois anos, um rapaz, antes dos vinte e seis. Uma moça e um rapaz reconhecidos culpados de amores clandestinos são severamente punidos e o casamento lhe é doravante interdito, a menos que o príncipe os perdoe.
Tanto à mulher quanto ao homem são dadas as mesmas condições para as escolhas dos respectivos companheiros: a possibilidade de se ver nu o pretendente, para evitar escolhas das quais possam surgir arrependimentos, “A mulher, seja virgem ou viúva, é mostrada nua ao seu pretendente por uma mulher honesta; um homem igualmente digno de confiança mostra à pretendente nu” (123). Observa-se, no discurso, uma considerável diferença relacionada à exigência da conduta sexual entre os gêneros. Da mulher exige-se que seja virgem ou viúva, do homem exige-se apenas que seja digno de confiança. Essa diferença, que se estabelece também pelo discurso, está relacionada à forma de se conceber o exercício da sexualidade: a exigência da castidade feminina e da confiabilidade masculina.
O feminino na obra de Morus e o discurso hegemônico em relação às instituições sociais – casamento, família, religião, trabalho, governo – reforçam os papeis que a mulher tem exercido na sociedade, sobretudo em relação ao trabalho e em relação à família. Talvez daí nasça a naturalização, antiga e atual, com a qual os discursos sociais se constituem em relação as funções femininas nas sociedades e que não costumam ser questionadas. Reconhece-se que há uma naturalização das competências femininas, no que diz respeito às suas funções. Reconhece-se, no texto de Morus, que, para o trabalho, a mulher tem papel equiparado ao do homem, a ele é igual; e na família e no exercício da religião, da sexualidade, e de outras instituições sociais a mulher a ele é subordinada, a mulher precisa ser vigiada em seus comportamentos, ela não tem a confiança e o respeito dedicados ao homem, seu companheiro, que assim lhe parece ser, entre aspas, quando na igreja a mulher deve se manter sempre visível ao homem, pois, “com isso quer se que os chefes de famílias possam vigiar em público a conduta dos que eles governam e instruem em suas casas” (Idem, 158).
É evidente, no discurso de Morus, em Utopia, que a igualdade não é paritária entre homens e mulheres, uma vez que a única atividade comum entre os gêneros é o trabalho e o estudo que forma para o trabalho. Nesse sentido, a ideia de igualdade se esfacela, a ideia de justiça que se idealiza na narrativa de Morus oportuniza a reflexão acerca do papeis exercidos pelo feminino. É possível reconhecer o lado duvidoso da igualdade entre o masculino e o feminino, pois o texto demonstra, por um lado, a possibilidade de emancipação, pelo trabalho e pelo estudo, mas reforça a condição de submissão e subserviência ao masculino sob a qual, ainda hoje, a mulher está (ex)posta. Existe uma ética masculina que rege os comportamentos, inclusive e sobretudo os femininos, de forma a demonstrar a condição de supremacia do macho, alfa, forte, dominador.
A partir do conceito de ideologia[1], a cultura exposta no país utópico revela-se, excessivamente, harmônica no que se refere aos papéis sociais atribuídos aos homens e pelos homens. A descrição de Utopia expõe um país patriarcal, em que tudo está normatizado, regulado pelas leis e construído pelo bom combate, sem guerra, com acordos que atendam às demandas de toda a sociedade, numa perspectiva sempre masculina, de acordo com Fortunati (2006, 6), “caracterizada por ideias de controle, absoluta perfeição, linearidade e lógica da linguagem”.
Bibliografia
BERLIN, Isaiah, Sir. Limites da Utopia: Capítulos da história das ideias. Tradução: Walter Lellis Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
FARAH, Marta Ferreira Santos. “Gênero e políticas públicas”. Revista de Estudos Feministas. Florianópolis, 12(1): 360, janeiro-abril/2004.
FORTUNATI Vita. RAMOS, Iolanda. “Utopia Re-Interpreted: An Interview with Vita Fortunati”, Spaces of Utopia: An Electronic Journal, nr. 2, Summer 2006, pp. 1-14 ISSN 1646-4729.
LALANDE, André. Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
MORUS, Tomás. A utopia. Porto Alegre: L&M Editores, 1997.
PLATÃO. A República. In: Os Pensadores. São Paulo: Editora Nova Cultural, 2004.
SILVA, Vânia dos Santos. Algumas Leituras Feministas de Platão: entre a imagem e a identidade. Brasília, 2013. 99p.
SANTOS, Boaventura Sousa. CHAUÍ, Marilena. Direitos humanos, democracia e desenvolvimento. São Paulo: Cortez, 2013.
ROUSSEAU, J. –J. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. Tradução Maria Ermantina de Almeida Prado Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
LEVI-STRAUSS, Claude. Mito e significado. Lisboa: Edições 70, 1989



[1] Sistema de ideias sustentadas por um grupo social, as quais refletem, racionalizam e defendem os próprios interesses e compromissos institucionais, sejam estes morais, religiosos, políticos ou econômicos; conjunto de convicções filosóficas, sociais, políticas etc. de um indivíduo ou grupo de indivíduos.


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Um desabafo

Por Rosa Amélia 
Sempre retomo a minha história, para não me esquecer das minhas origens, dos meus percalços e das minhas vitórias e do tanto que ela - a minha história - é linda e do tanto que eu fui corajosa. Às vezes, eu acho que eu devo ter comido o pão que o diabo amassou. Só isso pra justificar a minha defesa das políticas de inclusão do governo federal dos últimos 13 anos. Pra estudar, eu não pude contar com Prouni, Fies e nenhuma bolsa, muito menos com vale transporte. Fiz especialização paga, fiz graduação, mestrado e doutorado em universidades públicas sem bolsa e tive que ralar muito para mostrar que podia competir com aqueles que sempre estudaram em escolas privadas. Desde que me dispus a estudar, tive que conciliar trabalho (em empresa privada), para bancar a minha casa, os meus estudos e os de meus filhos. Fiz um monte de coisa de uma vez só, não sei de onde tirei tanta energia. Muitas vezes tive que vender o vale transporte para poder comprar o leite (não digo isso com tom de vitimismo, digo isso com alegria de boa gestora que sempre fui, tenho orgulho da minha capacidade de administrar bem o que eu adquiri com o meu trabalho suado). Talvez tenha até comido o pão que o diabo tenha amassado mesmo. Assim, quando vejo as políticas de inclusão se definhando, quando vejo as ruas se enchendo de vendedores ambulantes ou pedintes, meu coração apavora. Fico pensando o quanto retrocedemos e o quanto essa geração que teve tantas benesses com as políticas públicas de inclusão, nos últimos anos, não tem conhecimento do que é lutar para ter que estudar, e até sobreviver, como fazíamos no passado. Não que a luta não seja necessária, mas educação é direito fundamental estabelecido pela Constituição Federal. Ninguém devia lutar para ter acesso a ela.  Aceitemos os retrocessos... Mas o que me entristece é perceber o discurso de muitos jovens em defesa de um governo que só ataca a população em todos os seus direitos. Tenho a esperança de que, às vezes, para avançar, precisamos retroceder... Bora lá, galera...

domingo, 21 de janeiro de 2018

Eu e eu...

Por Rosa Amélia
Eu estou tentando me encontrar...
Ser eu e não ser esse eu que sempre fui.
Quero ser mais poesia.
Esta que reside em mim
E que foi oprimida.
Vem, Poesia,
Deixe-me ser...
Vem, Poesia,
Deusa do universo.
Vem, Poesia,
Concretização da vida.
Vem, Poesia,
Integre-se a mim.
Seja-me.
Eu sou a Poesia que me habita
E que deseja habitar o mundo.
Poesia em verso, em prosa.
Poesia é o que eu tenho em mim.
Poesia para o mundo e pra você
Poesia para mim.

Tu Tens um Medo



Cecília Meireles


Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo...
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...
... E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Esse sertão é sem tamanho...

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Coração sertanejo

        Sou sertaneja. Meu coração é do sertão. Hoje estou andarilha pelo mundo, conhecendo outras paragens; mas o de que eu gosto mesmo é do sertão, é da mata, das veredas, do cerrado, dos bichos, todos eles. Acredito que tenho muito a aprender, busco... constantemente. A travessia pelo Sertão será mais um passo nesse caminhar em busca de entender esse mundo, as nossas lutas, as nossas necessidades humanas... Conheço o Sertão das veredas... Desejo ampliar a minha perspectiva sertaneja e conhecer os Sertões do mundo.
        O Sertão que mora em mim é desejoso de se integrar a outros sertões do mundo. O Ser tão que mora em mim não é mais o meu sertão, senão o sertão do outro. Conhecer o sertão do outro é conhecer a mim mesma e continuar nessa busca em torno do entendimento da Poesia Concreta que é o grande sertão ou os sertões. Os grandes sertões e as pequenas veredas são uma manifestação completa e complementar do cosmo poeticamente, na sua diversidade mais linda, tudo isso imagino.

     Desejo conhecer mais esse mundo sertanejo, mergulhar na sua cultura, contribuir para o empoderamento das pessoas que nele vivem. Quero ser, ao menos, uma fagulha de sensibilidade para aqueles que olham o sertão e não veem a beleza poética extraordinária que o compõe. Precisamos lutar pelo sertão, para que ele continue sendo essencial na cultura nacional e para que ele se torne poesia aos olhos de quem não o vê poeticamente. Desejo participar dessa luta em benefício do sertão e em benefício de mim mesma. O sertão é lindo... o sertão é poesia. O sertão somos nós.