quinta-feira, 12 de abril de 2018

A ética masculina na Utopia de Morus


Por Rosa Amélia
Parafraseando Rousseau (2005), o homem, movido por suas necessidades básicas, organizou-se em pequenas sociedades, movido pelos desejos de poder, ter e exibir-se, desenvolveu a linguagem. Assim, pode-se dizer que, a partir da linguagem, ele inventou um mundo, criou narrativas que o justificassem, criou a filosofia que o explicasse. Entre a invenção do mundo, a criação da linguagem, das narrativas míticas e o fazer filosófico, muito mundo aconteceu, muita história sucedeu e o homem, apesar de tanta evolução cognitiva e intelectual, demonstra-se insatisfeito com aquilo que criou a partir da linguagem, com aquilo que ele explica a partir da linguagem. Nasce assim, o desejo daquilo que não há, nasce o desejo por um mundo ideal. Nascem, gradativamente, as utopias, uma aqui outra acolá, mas todas revelando esse desejo intrínseco da alma humana de uma vida pacífica e na glória de um possível criador. Nas palavras de Berlin, (1991: 30) as utopias apontam para a realização humana em sua totalidade.
A concepção de Utopia, apresentada no dicionário de Filosofia, baseada nas ideias de Morus, é a representação “sob a forma de uma descrição pormenorizada e concreta” (Lalande: 1996, 1184), de uma organização ideal para uma sociedade humana. Tal idealização passa por conceber a sociedade de forma perfeita: sábia, poderosa e feliz, “graças as instituições ideais de que goza” (idem, ibidem). Dessa forma, as utopias, de um modo geral, por seu caráter humanístico, foram e ainda são consideradas as sociedades que estimam e vivem, em plenitude, a igualdade entre os seres humanos. Os ideais e a cultura, se passam por algum conflito, não conduzem os homens para a guerra e todos os cidadãos zelam pela harmonia entre si.
Partindo da vida real, observa-se, dessa forma, que a Utopia é, então, o não-lugar, por sua impossibilidade de se concretizar como lugar real, uma vez que, considerando a história da humanidade e o caráter do ser humano, é praticamente impossível a constituição de uma sociedade justa, exceto no plano da idealização. As Utopias, enquanto mito da cidade ideal, nascem dos anseios de alguns humanistas, em relação a uma sociedade justa; toma corpo enquanto texto, no sentido de representar uma realidade almejada e torna-se um modelo, por exemplo a Utopia de Morus, sobretudo porque explora, a partir de uma descrição tão minuciosa, os anseios: uma sociedade justa e do bem para todos homens e mulheres. Contudo, vale lembrar, considerando a postura política de Morus e o seu envolvimento com questões sociais da sua época, que a sua Utopia pode ser compreendida como uma crítica tanto à sociedade daquela época, quanto aos desejos dos humanistas do século XV que viviam sob a égide da opressão e buscavam a libertação, nem que fosse por meio da expressão utópica.
As utopias são sempre complexas, polissêmicas, opulentas. Justamente devido à tal riqueza, é praticamente impossível uma leitura unilateral e objetiva. As utopias, sobretudo devido ao seu caráter plural, são filosóficas e literárias simultaneamente. Por sua essência idealista, elas revelam o completo inconformismo do homem diante da vida concreta, elas revelam o desejo pela justiça, pela equidade, a vontade do equilíbrio, por isso mesmo são apenas modelos, ou seja, são o não-lugar. Tal desejo constante de equidade e a incompletude que move o homem são características na humanidade inferidas a partir de qualquer sociedade, mas que não se realizam de fato, justamente em face da ambiguidade humana: a guerra e a paz, o amor e o ódio, a violência e a brandura.
Compreende-se que as conquistas dos homens em torno da busca da paz e da justiça não se constituem de forma plena. Do ponto de vista existencial, nem pode assim se constituir. Mas, analisando a história do homem, observa-se que, em alguns momentos históricos, a humanidade avança em algumas conquistas que dizem respeito às particularidades humanas; outras que dizem respeito a sua sociedade: uma ligada a outra, de forma complementar. Ao considerar que toda a humanidade seria contemplada com as virtudes das utopias, observa-se que, ao escrevê-la, Morus revela, centrado no não-lugar, na verdade, uma crítica às sociedades, ao seu modo de ser, uma vez que, sendo o não-lugar, não é possível esse lugar ser, existir.
Considerando a condição ontológica, a luta do homem tem sido constante no sentido de alcançar e viver plenamente alguns sentimentos e direitos, por exemplo, o direito ao exercício particular da sexualidade, o direito social ao trabalho, à diversidade da família e à distribuição de renda, ao sentimento do amor, da solidariedade, da compaixão, da fraternidade, do bem e da justiça. Nos altos e baixos das sociedades humanas, caminham homens e mulheres nessa luta diária para suprimir os conflitos existenciais particulares e coletivos e viver o bem e a justiça de forma cabal. Contudo, vale ressaltar que os conflitos que se referem especificamente ao gênero masculino não são similares aos femininos e estes frequentemente são atropelados em detrimento daqueles.
As narrativas míticas da origem do mundo, a terra, Gaia, revelam um princípio e sua origem no feminino, mesmo que se observe que a humanidade tem sido conduzida por uma ética masculina desde sempre. Contrapondo a ética masculina à feminina dentro as utopias, diante do que este gênero filosófico-literário representa, ressaltam-se dois mundos distintos: um utópico, engendrado pelas buscas existenciais e pela inconformação do masculino; outro mais centrado na realidade da ilha da Utopia e na sua construção, que se refere ao feminino. A utopia é um gênero literário filosófico que privilegia os homens, assegura Fortunati (2006, tradução própria). A utopia, apesar de ser um nome feminino, é ideologicamente masculina, criada por Utopus, um rei idealista e, como o próprio gênero aponta, masculino.
O primeiro indício de que a Utopia, ideologicamente, está enraizada no masculino relaciona-se à origem da ilha: o idealizador da ilha é um rei – masculino – que cria uma cidade fixada numa ilha – feminino. Essa marcação ideológica passa pela linguagem que, durante toda a descrição, registra querências e não querências masculinas, conforme se observa no exemplo a seguir em que se descreve como se glorifica um homem do bem na Utopia:
“Erguem em praças públicas estátuas para homens eminentes que foram dignos do Estado, ao mesmo tempo para perpetuar a lembrança de suas obras e para que a glórias dos antepassados sirva de estímulo a seus descendentes para fazer o bem” (Morus: 1997, 127).

A voz que narra, que compõe, que edifica a cidade utópica nada mais é que aquela que representa a ideologia patriarcal vigente. É bem verdade que, desde os primórdios, foi estabelecida uma diferença gigantesca entre os gêneros. Ela, a princípio, era de toda ordem.  Nas sociedades antigas, as mulheres eram consideradas seres incapazes de aprender, em outras eram comparadas a animais. Na filosofia antiga, a mulher era considerada apenas um repositório para o gozo masculino e, com isso, gerar filhos, um receptáculo para receber do homem a continuação da vida. Na era medieval, a mulher foi associada à loucura, por ter suas características associadas à irracionalidade, à libidinosidade e à luxúria, foi acusada de bruxa quando demonstrava algum conhecimento específico relacionado à cura por meio das ervas.
As mulheres já foram propriedades, já foram subservientes, já foram escravas, já foram esposas submissas e até hoje, em alguns casos, continuam assim sendo. Para Carvalho (apud Farah, 2004), as diferenças entre homens e mulheres são enfatizadas, estabelecendo-se uma polaridade entre masculino e feminino, produção e reprodução e público e privado. Para o feminismo da diferença, o poder concentrar-se-ia na esfera pública, estando nessa polaridade a origem da subordinação das mulheres. Na Utopia, reconhece-se essa polaridade fincada na ordem pública. A submissão da mulher ao homem se revela, sobretudo, nos ambientes públicos sociais, nos cultos religiosos, nas realizações festivas, na divisão das tarefas comunitárias, conforme se verifica na citação seguinte em que se observa a mulher numa posição sempre detrás, ou seja, posição de inferioridade e subserviência.
...ao entrarem no templo, os homens se dirigem para a direita, as mulheres para a esquerda, de modo que se os membros masculinos da família estejam sentados diante do pai e que a mãe esteja atrás do grupo de mulheres.
Não se pode negar que, na Utopia, considerando todo o contexto em que está inserida a obra, Morus tenha dado ao feminino muito além daquilo que as mulheres tinham, por exemplo, a condição de estudar. Isso aponta para o reconhecimento das qualidades intelectuais do feminino. Nesse sentido, Morus constrói uma narrativa apontando para a possibilidade de emancipação intelectual do feminino. A narrativa de Morus, além de ressaltar a capacidade intelectual do feminino, destaca a condição do feminino de exercer funções militares e de trabalho.
Eles se submetem permanentemente e em dias determinados à disciplina militar, não somente aos homens, mas também às mulheres, a fim de estarem preparados para a guerra, se for indispensável (132).
Compreende-se, assim, que Morus eleva a mulher para outra categoria social, diferente da realidade vivida no século em que o texto foi escrito. Contudo, ao elevar a mulher a essa nova categoria de estudante e trabalhadora, Morus não propõe a divisão das responsabilidades domésticas com o homem. “A cozinha, o preparo de alimentos e a ordem da refeição são incumbência exclusiva de mulheres, cada família enviando de cada vez as suas” (90). Tal fato aponta para a predominância de uma ética masculina, mesmo num texto em que se busca apresentar ideias de igualdade entre todos os seres humanos.
Além das obrigações domésticas que lhe cabem, praticamente por uma imposição arbitrária, social e masculina, a mulher pode, em alguns casos, e deve, em outros, assumir outras responsabilidades: a intelectual, o trabalho doméstico e a guerra. À mulher é dada a possibilidade de estudar a arte do seu ofício ou do que for de seu interesse, à mulher é concedido o direito de acompanhar o marido nos cultos religiosos e se colocar à direita/esquerda do sifogrante, à mulher é dada à condição de trabalhar. Todas essas prerrogativas masculinas são dadas ao feminino, elevando a sua condição social; contudo nenhuma atribuição de caráter feminino é compartilhada de alguma forma com os homens, tanto é que Morus afirma que, em outras palavras, que os trabalhos domésticos são obrigação exclusiva de mulheres. Isso demonstra como a ética masculina reina na construção da ideologia utópica de Morus.
 O estudo – aprendizagem – relacionado ao ofício/trabalho também é uma obrigação “Todos, homens e mulheres, sem exceção, são obrigados a aprender um ofício...” (idem, 79), “uma única atividade é comum a todos, homens e mulheres: a agricultura, que ninguém pode ignorar” (idem, 78).  Nota-se uma relativa igualdade entre os gêneros. Destaca-se tal relatividade, uma vez que as responsabilidades femininas relacionadas ao trabalho doméstico, à criação dos filhos continuam sendo apresentadas como competências femininas subordinadas a lei masculina, conforme se verifica nas passagens “As mulheres submetem-se a seus maridos, os filhos a seus pais e, de maneira geral, os mais jovens aos mais velhos” (idem, 87-8) e “Os maridos punem as mulheres; os pais punem seus filhos, a menos que uma falta muito grave exija reparação pública” (idem, 126).
As utopias tradicionais, como se observa em Morus, são, nas palavras de Fortunaty, “a repetição de mitos e costumes das sociedades patriarcais” (2006, 2). Nas utopias tradicionais, devido a questões morais do seu tempo, não há uma outra alternativa melhor para a mulher, exceto aquela pensada a partir de valores éticos masculinos. Isso pode ser verificado na passagem em que Morus coloca as preocupações masculinas e aponta as queixas das mulheres como algo que importuna o espírito do homem, impedindo-o de viver uma vida livre e feliz:
Há riqueza maior do que viver sem nenhuma preocupação, com o espírito livre e feliz, sem inquietar-se com o pão, sem ser importunado pelas queixas de uma esposa, sem temer a pobreza para um filho, sem se atormentar com o dote de uma filha? Poder contar com os recursos e a felicidade dos familiares, mulher, filhos e netos, e até a mais longa posteridade que um nobre pudesse desejar? (Morus: 1997, 161).
Mesmo considerando o tempo em que foi escrito, mesmo considerando que avanços propostos em relação à participação da mulher na sociedade em relação ao trabalho, ao estudo, à participação permitida na guerra, à participação consentida e acompanhada por homens nos altares religiosos, há muito o que se questionar em relação à participação da mulher na construção da Utopia de Morus, sobretudo no que se refere à autonomia e à participação,  já no século XV, no campo profissional e social quase como uma exigência para o feminino, que não se estabelece para o masculino.
A mulher acumula as suas obrigações relacionadas aos trabalhos domésticos associadas às outras que Morus lhe dá como se fossem prêmio. Observa-se que, para o serviço militar, não há alternância de envio das mulheres e muito menos alternância de responsabilidades quanto aos serviços domésticos.
Eles se submetem permanentemente e em dias determinados à disciplina militar, não somente os homens, mas também às mulheres, a fim de estarem preparados para a guerra, se for indispensável (idem, 132).
Inclusive, afirma-se que a mulher pode, se for treinada, fazer quaisquer serviços que competiam aos homens em decorrência de sua força física, traço que o distingue do gênero feminino.   Em relação ao exercício da sexualidade, à condição para o casamento, a mulher tem a prerrogativa de se casar mais cedo que o homem e é cobrada da mesma forma quando se trata de punição em relação às traições ou amores sem compromisso, clandestinos.
Uma moça não se casa antes dos vinte e dois anos, um rapaz, antes dos vinte e seis. Uma moça e um rapaz reconhecidos culpados de amores clandestinos são severamente punidos e o casamento lhe é doravante interdito, a menos que o príncipe os perdoe.
Tanto à mulher quanto ao homem são dadas as mesmas condições para as escolhas dos respectivos companheiros: a possibilidade de se ver nu o pretendente, para evitar escolhas das quais possam surgir arrependimentos, “A mulher, seja virgem ou viúva, é mostrada nua ao seu pretendente por uma mulher honesta; um homem igualmente digno de confiança mostra à pretendente nu” (123). Observa-se, no discurso, uma considerável diferença relacionada à exigência da conduta sexual entre os gêneros. Da mulher exige-se que seja virgem ou viúva, do homem exige-se apenas que seja digno de confiança. Essa diferença, que se estabelece também pelo discurso, está relacionada à forma de se conceber o exercício da sexualidade: a exigência da castidade feminina e da confiabilidade masculina.
O feminino na obra de Morus e o discurso hegemônico em relação às instituições sociais – casamento, família, religião, trabalho, governo – reforçam os papeis que a mulher tem exercido na sociedade, sobretudo em relação ao trabalho e em relação à família. Talvez daí nasça a naturalização, antiga e atual, com a qual os discursos sociais se constituem em relação as funções femininas nas sociedades e que não costumam ser questionadas. Reconhece-se que há uma naturalização das competências femininas, no que diz respeito às suas funções. Reconhece-se, no texto de Morus, que, para o trabalho, a mulher tem papel equiparado ao do homem, a ele é igual; e na família e no exercício da religião, da sexualidade, e de outras instituições sociais a mulher a ele é subordinada, a mulher precisa ser vigiada em seus comportamentos, ela não tem a confiança e o respeito dedicados ao homem, seu companheiro, que assim lhe parece ser, entre aspas, quando na igreja a mulher deve se manter sempre visível ao homem, pois, “com isso quer se que os chefes de famílias possam vigiar em público a conduta dos que eles governam e instruem em suas casas” (Idem, 158).
É evidente, no discurso de Morus, em Utopia, que a igualdade não é paritária entre homens e mulheres, uma vez que a única atividade comum entre os gêneros é o trabalho e o estudo que forma para o trabalho. Nesse sentido, a ideia de igualdade se esfacela, a ideia de justiça que se idealiza na narrativa de Morus oportuniza a reflexão acerca do papeis exercidos pelo feminino. É possível reconhecer o lado duvidoso da igualdade entre o masculino e o feminino, pois o texto demonstra, por um lado, a possibilidade de emancipação, pelo trabalho e pelo estudo, mas reforça a condição de submissão e subserviência ao masculino sob a qual, ainda hoje, a mulher está (ex)posta. Existe uma ética masculina que rege os comportamentos, inclusive e sobretudo os femininos, de forma a demonstrar a condição de supremacia do macho, alfa, forte, dominador.
A partir do conceito de ideologia[1], a cultura exposta no país utópico revela-se, excessivamente, harmônica no que se refere aos papéis sociais atribuídos aos homens e pelos homens. A descrição de Utopia expõe um país patriarcal, em que tudo está normatizado, regulado pelas leis e construído pelo bom combate, sem guerra, com acordos que atendam às demandas de toda a sociedade, numa perspectiva sempre masculina, de acordo com Fortunati (2006, 6), “caracterizada por ideias de controle, absoluta perfeição, linearidade e lógica da linguagem”.
Bibliografia
BERLIN, Isaiah, Sir. Limites da Utopia: Capítulos da história das ideias. Tradução: Walter Lellis Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
FARAH, Marta Ferreira Santos. “Gênero e políticas públicas”. Revista de Estudos Feministas. Florianópolis, 12(1): 360, janeiro-abril/2004.
FORTUNATI Vita. RAMOS, Iolanda. “Utopia Re-Interpreted: An Interview with Vita Fortunati”, Spaces of Utopia: An Electronic Journal, nr. 2, Summer 2006, pp. 1-14 ISSN 1646-4729.
LALANDE, André. Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
MORUS, Tomás. A utopia. Porto Alegre: L&M Editores, 1997.
PLATÃO. A República. In: Os Pensadores. São Paulo: Editora Nova Cultural, 2004.
SILVA, Vânia dos Santos. Algumas Leituras Feministas de Platão: entre a imagem e a identidade. Brasília, 2013. 99p.
SANTOS, Boaventura Sousa. CHAUÍ, Marilena. Direitos humanos, democracia e desenvolvimento. São Paulo: Cortez, 2013.
ROUSSEAU, J. –J. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. Tradução Maria Ermantina de Almeida Prado Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
LEVI-STRAUSS, Claude. Mito e significado. Lisboa: Edições 70, 1989



[1] Sistema de ideias sustentadas por um grupo social, as quais refletem, racionalizam e defendem os próprios interesses e compromissos institucionais, sejam estes morais, religiosos, políticos ou econômicos; conjunto de convicções filosóficas, sociais, políticas etc. de um indivíduo ou grupo de indivíduos.


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Um desabafo

Por Rosa Amélia 
Sempre retomo a minha história, para não me esquecer das minhas origens, dos meus percalços e das minhas vitórias e do tanto que ela - a minha história - é linda e do tanto que eu fui corajosa. Às vezes, eu acho que eu devo ter comido o pão que o diabo amassou. Só isso pra justificar a minha defesa das políticas de inclusão do governo federal dos últimos 13 anos. Pra estudar, eu não pude contar com Prouni, Fies e nenhuma bolsa, muito menos com vale transporte. Fiz especialização paga, fiz graduação, mestrado e doutorado em universidades públicas sem bolsa e tive que ralar muito para mostrar que podia competir com aqueles que sempre estudaram em escolas privadas. Desde que me dispus a estudar, tive que conciliar trabalho (em empresa privada), para bancar a minha casa, os meus estudos e os de meus filhos. Fiz um monte de coisa de uma vez só, não sei de onde tirei tanta energia. Muitas vezes tive que vender o vale transporte para poder comprar o leite (não digo isso com tom de vitimismo, digo isso com alegria de boa gestora que sempre fui, tenho orgulho da minha capacidade de administrar bem o que eu adquiri com o meu trabalho suado). Talvez tenha até comido o pão que o diabo tenha amassado mesmo. Assim, quando vejo as políticas de inclusão se definhando, quando vejo as ruas se enchendo de vendedores ambulantes ou pedintes, meu coração apavora. Fico pensando o quanto retrocedemos e o quanto essa geração que teve tantas benesses com as políticas públicas de inclusão, nos últimos anos, não tem conhecimento do que é lutar para ter que estudar, e até sobreviver, como fazíamos no passado. Não que a luta não seja necessária, mas educação é direito fundamental estabelecido pela Constituição Federal. Ninguém devia lutar para ter acesso a ela.  Aceitemos os retrocessos... Mas o que me entristece é perceber o discurso de muitos jovens em defesa de um governo que só ataca a população em todos os seus direitos. Tenho a esperança de que, às vezes, para avançar, precisamos retroceder... Bora lá, galera...

domingo, 21 de janeiro de 2018

Eu e eu...

Por Rosa Amélia
Eu estou tentando me encontrar...
Ser eu e não ser esse eu que sempre fui.
Quero ser mais poesia.
Esta que reside em mim
E que foi oprimida.
Vem, Poesia,
Deixe-me ser...
Vem, Poesia,
Deusa do universo.
Vem, Poesia,
Concretização da vida.
Vem, Poesia,
Integre-se a mim.
Seja-me.
Eu sou a Poesia que me habita
E que deseja habitar o mundo.
Poesia em verso, em prosa.
Poesia é o que eu tenho em mim.
Poesia para o mundo e pra você
Poesia para mim.

Tu Tens um Medo



Cecília Meireles


Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo...
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...
... E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Esse sertão é sem tamanho...

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Coração sertanejo

        Sou sertaneja. Meu coração é do sertão. Hoje estou andarilha pelo mundo, conhecendo outras paragens; mas o de que eu gosto mesmo é do sertão, é da mata, das veredas, do cerrado, dos bichos, todos eles. Acredito que tenho muito a aprender, busco... constantemente. A travessia pelo Sertão será mais um passo nesse caminhar em busca de entender esse mundo, as nossas lutas, as nossas necessidades humanas... Conheço o Sertão das veredas... Desejo ampliar a minha perspectiva sertaneja e conhecer os Sertões do mundo.
        O Sertão que mora em mim é desejoso de se integrar a outros sertões do mundo. O Ser tão que mora em mim não é mais o meu sertão, senão o sertão do outro. Conhecer o sertão do outro é conhecer a mim mesma e continuar nessa busca em torno do entendimento da Poesia Concreta que é o grande sertão ou os sertões. Os grandes sertões e as pequenas veredas são uma manifestação completa e complementar do cosmo poeticamente, na sua diversidade mais linda, tudo isso imagino.

     Desejo conhecer mais esse mundo sertanejo, mergulhar na sua cultura, contribuir para o empoderamento das pessoas que nele vivem. Quero ser, ao menos, uma fagulha de sensibilidade para aqueles que olham o sertão e não veem a beleza poética extraordinária que o compõe. Precisamos lutar pelo sertão, para que ele continue sendo essencial na cultura nacional e para que ele se torne poesia aos olhos de quem não o vê poeticamente. Desejo participar dessa luta em benefício do sertão e em benefício de mim mesma. O sertão é lindo... o sertão é poesia. O sertão somos nós.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

A filosofia moderna: um percurso histórico

Por Rosa Amélia 
O cenário político, cultural e filosófico que antecedeu a Era Moderna da história da humanidade revela-se bastante conflituoso; contudo, aberto às novas ideias, às mudanças necessárias para uma nova perspectiva de pensar o mundo por meio da razão e pela capacidade de realizar abstrações. Os séculos XIV e XV foram importantes em decorrência dos vários acontecimentos que levaram o homem a valorizar o pensamento racional e a perspectiva antropocêntrica como forma de explicar o mundo, os conflitos humanos, as questões políticas, o fazer científico e, sobretudo, a filosofia. Entre tantos conflitos, o fazer filosófico, numa perspectiva naturalista, vai se constituindo entre os meandros da fé e da racionalidade, criando novos paradigmas, que podem ser entendidos como modelos, nas palavras de Hacking (2012), os quais representam os dados específicos de uma realidade do mundo ou o modo de realizar as atividades nesse mundo. Isso fica evidente ao se analisar o comportamento dos cientistas que promoveram os avanços relativos à física, à matemática, à alquimia.
Reconhece-se que os pensadores desses séculos foram grandes empreendedores, porque a empreitada filosófica, cultural, social e política era contra um sistema robusto que fora construído ao longo de séculos e sustentado por paradigmas filósofos - patrísticos e escolásticos –, os quais, a partir das ideias platônicas e aristotélicas, fundamentaram muito consistentemente as ideias teocêntricas. Nas palavras de   Rossi (2001), parece ter sido a Idade Média um período de poucas revoluções intelectuais, apesar de ter sido a época em que se deu a criação às grandes universidades, lugar de saberes privilegiados e que deram aos intelectuais a dignidade da remuneração. Vale lembrar que a ideia de Hacking (2012), para quem a ideia de revolução caracteriza pela perpetuação do próprio fazer revolucionário dentro da ciência. A ciência é em si a sua própria fonte de revolução.
O Medievo, claro, tem a sua importância cultural, sobretudo do ponto de vista filosófico e religioso. Vale lembrar que as lutas e as guerras, nesse contexto, foram empreendedoras no sentido de alargar o domínio de terras e, com isso, o poder econômico e político dos reinos vencedores. A sociedade era bastante estratificada: nobreza, clero e servos compunham as classes. A nobreza era composta pelos senhores feudais, ligados fortemente ao poder clerical, os quais determinavam juntos os dogmas religiosos e os compromissos sociais da classe subordinada, praticamente toda analfabeta. A arte era comprometida com os temas religiosos, assim como a filosofia. Nessa época, citando White (apud Rossi, 2001: 15), vale lembrar que foram construídas inumeráveis e admiráveis igrejas e catedrais, bem como conventos e moinhos movidos a ventos e foram lavrados o campo a arado pesado e foi inventado o estribo que mudou a natureza dos combates. A economia girava em torno da produção agrícola, era uma sociedade fortemente agrária. O poder político e econômico estava, fortemente, ligado ao poder do clero, a forma de governo era absolutista.
Diante desse cenário e dos conflitos originados em função da luta pelo domínio de terras entre árabes e os romanos/europeus, alguns pensadores se propuseram a questionar esse sistema e se colocaram numa perspectiva mais humanista diante das questões sociais. Destaca-se também a necessidade de eles se posicionarem diante também dos mistérios que justificavam, muitas vezes, as ações do grupo de pensadores do Medievo: a fé incondicional em um Deus que determina todos os acontecimentos no mundo, inclusive os abusos de poder por parte do próprio clero. Observa-se, assim, nesta sucinta descrição que tanto o fazer científico, filosófico quanto o fazer político, dos referidos séculos, implodiram a si mesmos a partir de questionamentos daqueles que viviam os regimes vigentes.
Naquele momento, a evolução do pensamento humano alcança um patamar, antes, nunca visto. Os pensadores, inspirados pelo espírito grego, racionalista e pagão, desenvolvem o que foi denominado como ideário renascentista. O Renascimento, enquanto movimento cultural, político e filosófico, teve início no século XIV, com o apogeu no século XV e expandiu-se até o século XVII, ou seja, começa nos anos trezentos e segue até os anos seiscentos. A cultura renascentista, na verdade, inicia-se com a decadência do sistema feudal e absolutista e com a valorização do mercantilismo, que marca o início do capitalismo e estabelece o comércio em função das conquistas ultramarinas, as quais fortalece o sistema financeiro. 
Na verdade, a cultura renascentista sustentou-se em quatro pilares: o primeiro pilar é a razão como fonte de todo o conhecimento, a razão como capacidade de pensar abstratamente; segundo pilar é o empirismo como forma de provar as ideias e os fatos fora do domínio da evidências, explorando a razão, o pensamento abstrato e também como forma de caracterizar a experiência como determinante para a comprovação dos fatos, para retirá-los do campo da fé; o terceiro pilar é o ideal antropocêntrico, que compreende o homem como o centro do desenvolvimento do conhecimento científico, distanciando-se da prática teocêntrica, a partir da qual se desenvolvia um conhecimento baseado na fé; e o quarto pilar é o individualismo, que passou a destacar o homem como centro de toda a produção intelectual, artística e filosófica.
Observa-se, ao longo desse tempo, que ocorre um salto grandioso nas formas de pensar o mundo e de agir diante dele tanto nas artes, na ciência, na filosofia. O modus operandis humano já não é de subserviência e de subalternidade às ideias teocêntricas. O homem passa a se enxergar como a perfeita criação do Criador, capaz de atuar no mundo para o próprio progresso, sobretudo no campo da ciência, a partir da qual começa-se a descontruir todos os dogmas e medos seculares constituídos a partir do espírito religioso e dogmático no sentido de conduzir e dominar as civilizações.
O Renascimento reencontrou, sem dúvida, de certo modo, os valores do mundo greco-romano. Mas, ao mesmo tempo, tomou consciência do intransponivel fosso que o separava desses valores. Interpondo os espessos tempos obscuros entre a Antiguidade e a nova Idade de Ouro, relegou definitivamente para o passado como coisa já esgotada, uma civilização em que desejava inspirar-se, mas que não podia ressuscitar. O Renascimento, portanto, teve consciência histórica. Essa consciência era uma novidade e era sinal de uma mentalidade nova (Delumeau, 1994: 119).
Rossi (2001) demonstra quão qualitativo e cheio de adversidade fora essa passagem para uma nova forma de fazer ciência e pensar o mundo. Antes o mundo estava ligado intrinsicamente a uma filosofia teocêntrica ou a uma tentativa de explicar Deus pela filosofia, era outro paradigma. Ao observar o espaço físico, propriamente dito, a partir da invenção de alguns instrumentos, como a luneta e o microscópio, por exemplo, os filósofos/cientistas começam a questionar algumas certezas acerca do mundo físico e do mundo metafísico. Tais questionamentos, centrados em outros paradigmas, na verdade, à época, provocaram grandes reboliços nas esferas da política e do comando das sociedades, uma vez que as ditas certezas mantinham no poder aqueles que as determinavam. Vale lembrar que todo esse contexto social de valoração de uma filosofia teocêntrica constituiu, por muito tempo, o que Bachelard denominou de “obstáculos epistemológicos, uma vez que tais valores acabaram dificultando de certa forma o avanço da ciência.
Aquelas convicções que tendem a impedir toda a ruptura   e a descontinuidade no crescimento do saber científico e, por conseguinte, constituem obstáculos poderosíssimos para a afirmação de novas verdades” (Bachelard, aput Rossi. 2001: 29).
A tentativa de laicização da filosofia e da ciência teve, como principal embargo, a cultura teocêntrica. Rossi afirma que
a ciência moderna não nasceu no campo da generalização de observações empíricas, mas no terreno de uma análise capaz de abstrações, isto é, capaz de deixar o nível do sentido comum, das qualidades sensíveis e da experiência imediata (2001: 34).
Era essa a prática comum ao realizar a filosofia teocêntrica, uma vez que os raciocínios eram encaminhados para que se provasse a existência de Deus. Rossi aponta outro fator que dificultou o nascimento da ciência moderna: o desmerecimento do conhecimento mecânico em detrimento do conhecimento racional e dito científico. Esse desmerecimento tem a ver com “estrutura da sociedade e com a organização do trabalho” (2001: 39).
Rossi avança na reflexão no sentido de demonstrar como o conhecimento mecânico pode ser valorizado. Após questionar se “é possível que um homem possa chegar ao conhecimento dos efeitos naturais sem jamais ter lido livros escritos” (2001: 65), o autor apresenta uma série de exemplos em que homens simples, a partir da sua técnica, realizam descobertas importantes para o mundo científico.
No Ocidente, durante mais de mil anos, as figuras dominantes da cultura eram os santos, os monges, o professor, o militar, o médico, o artesão e o mágico. Depois passaram a integrar esse grupo os humanistas e os fidalgos. No século XVII inseriram-se nesse grupo o mecânico, o filósofo naturalista, o artista virtuoso ou livre empreendedor. Com a inserção desses novos membros, a ideia de conhecimento, o novo saber científico passa a colidir com o saber dos monges, dos escolásticos, dos humanistas e dos professores. Há uma forte oposição entre o conhecimento alquímico e o conhecimento dos mecânicos e dos engenheiros emerge, apesar desses dois tipos de conhecimento caminharem conjuntamente. O desenvolvimento das artes mecânicas e da ciência compõe o desenvolvimento ciência comprovando o que Hacking (2012) afirma em relação ao fato de a ciência não ser puramente lógica e racional.
Ao que parece há uma guerra pelo conhecimento. Assim como os monges antes pulverizavam a ideia de que há um conhecimento oculto não acessível a todos, os engenheiros, ao realizarem suas invenções, não davam a conhecer os meandros de suas descobertas, não pelas mesmas razões. Eles protegiam o conhecimento por uma questão econômica, os outros, ao que parece, protegiam por uma questão de poder. O mistério, para os místicos, era a justificativa para caracterizar as forças ocultas. Contudo busca-se desconstruir essa ideia do segredo como algo interessante, busca-se entender o segredo como um desvalor.
Em relação ao que move a ciência, observa-se que ela foi movida, nesses tempos, por artistas e práticos, pois eles realizavam suas produções pelo prazer, pela diversão, estimulados s projetarem algo novo que trouxesse conforto e diversão, não estavam envolvidos necessariamente com o progresso da ciência.
Interessante notar que o avanço das reflexões no campo da filosofia e da ciência se concretizam de tal forma que começam a desmoronar as crenças e os valores que sustentaram até aquele momento as ideologias teocêntricas. Muitos foram perseguidos, muitos foram condenados hereges. Os pensadores, aliando-se às novas tecnologias, buscavam explicar o mundo de uma forma mais concreta, a partir de observações empíricas do espaço e da natureza. O que se pode entender, a partir dos estudos, é que o desenvolvimento do pensamento matemático, da experiência no campo da física e dos ensaios alquímicos no campo da química fez um mundo teocêntrico ruir. Por mais que os filósofos tentassem justificar, explicar aspectos metafísicos por meio de experiências, fatos naturais, esse campo só pode ser desenvolvido no plano do raciocínio e para aqueles que acreditam no transcendental. Contudo, a ciência progride a partir do raciocínio matemático, das experiências empíricas e das observações naturais, as quais parecem não ser exaustivas. Há sempre algo novo a ser descoberto a partir de uma descoberta.
Observa-se, em Hacking (2012), uma preocupação em distinguir o processo evolutivo da ciência e o próprio fazer científico. Para construir essa distinção, ao discorrer sobre o progresso do conhecimento ele aponta para dois tipos de história: a externa e a interna. A interna seria aquela que é própria do fazer científico, talvez mais difícil de acompanhar em detrimento da quantidade de conhecimento que se agrega ao se constituir a ciência; a externa, destaque nesta reflexão, aponta para perspectiva histórica do ponto de vista social, político e econômico, compõe-se dos fatos sucessivamente que contribuíram de maneira interna para a evolução da ciência. Hacking (2012) ressalta que essas perspectivas estão intrinsicamente ligadas, uma se sobrepondo à outra, numa relação dialética. Não se produz conhecimento fora da história e não se produz conhecimento fora da ciência. “O conhecimento, em si mesmo, constitui uma entidade que evolui historicamente” (idem, 78).  
Considerando o contexto da revolução científica que começa a partir do século XV, Copérnico talvez tenha sido o precursor nessa conquista, porque ele, ao apontar as suas constatações, realizadas a partir de instrumentos mecânicos, revolucionou o estudo no campo da astronomia, fez ruir o céu que existia e criou uma polêmica em torno de suas teses. Interpretando outros filósofos, como Ptolomeu, Aristóteles, ele constrói uma nova teoria, contudo, receoso das controversas, humilde e humanista, ele a apresenta de forma mais reticente. Seguindo o caminho de Copérnico, Kepler, Tycho, Galilei, Giordano Bruno, Pascal, Descartes, Isaac Newton contribuíram significativamente para o desenvolvimento da ciência: alguns mais agressivos, outros mais reticentes, às vezes negando as teorias dos outros, às vezes, confirmando, mas sempre com a tenaz ideia de fazer a ciência avançar, mesmo quando a maioria deles estivera preso, por questões ideológicas, ao Cristianismo.
O auge desse momento acontece com as reflexões de Descartes, cujas ideias demarcam o que os estudiosos denominam de “revolução científica” e relacionam-se com o fazer científico de forma bastante objetiva. Tal objetividade é descrita no Discurso do Método em que se observa o passo a passo do pensar científico: a partir do momento em que se questiona a razão humana para educa-lo no processo de raciocinar sobre a verdade, buscando a melhor forma de compreender as ideias, deve-se colocar tudo em cheque, ou seja, deve-se duvidar de tudo.
A dúvida é o princípio de tudo inclusive da característica racional humana, uma vez que quem duvida duvida porque pensa, se se duvida, se pensa, se se pensa, existe-se, assim cria-se a máxima de Descartes: penso logo existo, cujo princípio é a dúvida. No Método cartesiano, há quatro etapas: questionamento das ideias – aquelas que passarem pelo crivo do questionamento, serem indubitáveis devem ser divididas, esquadrinhadas para melhor análise; a partir dessa divisão, deve-se realizar uma separação dessas ideias considerando as mais simples e as mais complexas, ou seja, para compreendê-las, é necessário buscar entender a gradação, a complexidade entre elas. O passo seguinte do Método de Descartes é realizar uma revisão de todo o processo realizando questionamento para se verificar as arestas acerca das questões postas inicialmente com o objetivo de garantir a segurança das respostas obtidas. Esse método tornou-se, na verdade, a base da Ciência Moderna.
A suposta revolução científica iniciada no século XV, que avançou no século XVI, acabou culminando, a partir de um processo de transformações tanto no pensamento, quanto nas formas de fazer a ciência, com as reflexões de Isaac Newton, o maior pensador do século XVIII. Nascido no fim do século XVII, Newton se destacou ao estudar a astronomia, a matemática, a alquimia, a ótica, a física. A partir de observações realizadas do espaço, por meio de instrumento específicos e por meio de cálculos matemáticos criados por ele mesmo, este pensador revoluciona a ciência propondo a teoria gravitacional do universo e outras teorias dentro da matemática. Muito ligado à ideologia cristã, Newton tenta provar matematicamente a existência de um Deus. Sem desmerecer todo o trabalho de Newton, é bom lembrar que ele foi sustentado por um avanço construído por outros precursores. Isso demonstra a perspectiva interna e externa do fazer científico estão realmente ligados.
Ao fim desse percurso histórico, na tentativa de mostrar como a filosofia, mesmo estando presa aos domínios da fé, foi se desprendendo da perspectiva  teocêntrica, destacam-se nomes importantes, que muitas vezes defenderam o cristianismo, a divindade e a bíblia, contudo acabaram por promover a laicização do pensamento filosófico e o desenvolvimento, paulatino, da ciência, ou seja, acabaram por promover uma mudança de paradigma nas formas de fazer ciência e filosofia, nas formas de compreender o mundo e o homem.

BIBLIOGRAFIA
DELUMEAU, Jean. A civilização do Renascimento. Tradução Manuel Ruas. Lisboa: Editora Estampa, 1994.
HACKING, Ian. Representar e intervir: tópicos introdutórios de filosofia da ciência natural. Tradução Pedro Rocha de Oliveira. Rio de Janeiro: EdUerj, 2012.
ROSSI, Paolo. O nascimento da ciência moderna na Europa. Tradução de Antonio Angonese. Bauru, São Paulo: EDUSC, 2001.