domingo, 21 de janeiro de 2018

Poesia

Por Rosa Amélia
Eu estou tentando me encontrar...
Ser eu e não ser esse eu que sempre fui.
Quero ser mais poesia.
Esta que reside em mim
E que foi oprimida.
Vem, Poesia,
Deixe-me ser...
Vem, Poesia,
Deusa do universo.
Vem, Poesia,
Concretização da vida.
Vem, Poesia,
Integre-se a mim.
Seja-me.
Eu sou a Poesia que me habita
E que deseja habitar o mundo.
Poesia em verso, em prosa.
Poesia é o que eu tenho em mim.
Poesia para o mundo e pra você
Poesia para mim.

Tu Tens um Medo



Cecília Meireles


Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo...
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...
... E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Esse sertão é sem tamanho...

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Coração sertanejo

        Sou sertaneja. Meu coração é do sertão. Hoje estou andarilha pelo mundo, conhecendo outras paragens; mas o de que eu gosto mesmo é do sertão, é da mata, das veredas, do cerrado, dos bichos, todos eles. Acredito que tenho muito a aprender, busco... constantemente. A travessia pelo Sertão será mais um passo nesse caminhar em busca de entender esse mundo, as nossas lutas, as nossas necessidades humanas... Conheço o Sertão das veredas... Desejo ampliar a minha perspectiva sertaneja e conhecer os Sertão do mundo.
        O Sertão que mora em mim é desejoso de se integrar a outros sertões do mundo. O Ser tão que mora em mim não é mais o meu sertão, senão o sertão do outro. Conhecer o sertão do outro é conhecer a mim mesma e continuar nessa busca em torno do entendimento da Poesia Concreta que é o grande sertão ou os sertões. Os grandes sertões e as pequenas veredas são uma manifestação completa e complementar do cosmo poeticamente, na sua diversidade mais linda, tudo isso imagino.

     Desejo conhecer mais esse mundo sertanejo, mergulhar na sua cultura, contribuir para o empoderamento das pessoas que nele vivem. Quero ser, ao menos, uma fagulha de sensibilidade para aqueles que olham o sertão e não veem a beleza poética extraordinária que o compõe. Precisamos lutar pelo sertão, para que ele continue sendo essencial na cultura nacional e para que ele se torne poesia aos olhos de quem não o vê poeticamente. Desejo participar dessa luta em benefício do sertão e em benefício de mim mesma. O sertão é lindo... o sertão é poesia. O sertão somos nós.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

A filosofia moderna: um percurso histórico

O cenário político, cultural e filosófico que antecedeu a Era Moderna da história da humanidade revela-se bastante conflituoso; contudo, aberto às novas ideias, às mudanças necessárias para uma nova perspectiva de pensar o mundo por meio da razão e pela capacidade de realizar abstrações. Os séculos XIV e XV foram importantes em decorrência dos vários acontecimentos que levaram o homem a valorizar o pensamento racional e a perspectiva antropocêntrica como forma de explicar o mundo, os conflitos humanos, as questões políticas, o fazer científico e, sobretudo, a filosofia. Entre tantos conflitos, o fazer filosófico, numa perspectiva naturalista, vai se constituindo entre os meandros da fé e da racionalidade, criando novos paradigmas, que podem ser entendidos como modelos, nas palavras de Hacking (2012), os quais representam os dados específicos de uma realidade do mundo ou o modo de realizar as atividades nesse mundo. Isso fica evidente ao se analisar o comportamento dos cientistas que promoveram os avanços relativos à física, à matemática, à alquimia.
Reconhece-se que os pensadores desses séculos foram grandes empreendedores, porque a empreitada filosófica, cultural, social e política era contra um sistema robusto que fora construído ao longo de séculos e sustentado por paradigmas filósofos - patrísticos e escolásticos –, os quais, a partir das ideias platônicas e aristotélicas, fundamentaram muito consistentemente as ideias teocêntricas. Nas palavras de   Rossi (2001), parece ter sido a Idade Média um período de poucas revoluções intelectuais, apesar de ter sido a época em que se deu a criação às grandes universidades, lugar de saberes privilegiados e que deram aos intelectuais a dignidade da remuneração. Vale lembrar que a ideia de Hacking (2012), para quem a ideia de revolução caracteriza pela perpetuação do próprio fazer revolucionário dentro da ciência. A ciência é em si a sua própria fonte de revolução.
O Medievo, claro, tem a sua importância cultural, sobretudo do ponto de vista filosófico e religioso. Vale lembrar que as lutas e as guerras, nesse contexto, foram empreendedoras no sentido de alargar o domínio de terras e, com isso, o poder econômico e político dos reinos vencedores. A sociedade era bastante estratificada: nobreza, clero e servos compunham as classes. A nobreza era composta pelos senhores feudais, ligados fortemente ao poder clerical, os quais determinavam juntos os dogmas religiosos e os compromissos sociais da classe subordinada, praticamente toda analfabeta. A arte era comprometida com os temas religiosos, assim como a filosofia. Nessa época, citando White (apud Rossi, 2001: 15), vale lembrar que foram construídas inumeráveis e admiráveis igrejas e catedrais, bem como conventos e moinhos movidos a ventos e foram lavrados o campo a arado pesado e foi inventado o estribo que mudou a natureza dos combates. A economia girava em torno da produção agrícola, era uma sociedade fortemente agrária. O poder político e econômico estava, fortemente, ligado ao poder do clero, a forma de governo era absolutista.
Diante desse cenário e dos conflitos originados em função da luta pelo domínio de terras entre árabes e os romanos/europeus, alguns pensadores se propuseram a questionar esse sistema e se colocaram numa perspectiva mais humanista diante das questões sociais. Destaca-se também a necessidade de eles se posicionarem diante também dos mistérios que justificavam, muitas vezes, as ações do grupo de pensadores do Medievo: a fé incondicional em um Deus que determina todos os acontecimentos no mundo, inclusive os abusos de poder por parte do próprio clero. Observa-se, assim, nesta sucinta descrição que tanto o fazer científico, filosófico quanto o fazer político, dos referidos séculos, implodiram a si mesmos a partir de questionamentos daqueles que viviam os regimes vigentes.
Naquele momento, a evolução do pensamento humano alcança um patamar, antes, nunca visto. Os pensadores, inspirados pelo espírito grego, racionalista e pagão, desenvolvem o que foi denominado como ideário renascentista. O Renascimento, enquanto movimento cultural, político e filosófico, teve início no século XIV, com o apogeu no século XV e expandiu-se até o século XVII, ou seja, começa nos anos trezentos e segue até os anos seiscentos. A cultura renascentista, na verdade, inicia-se com a decadência do sistema feudal e absolutista e com a valorização do mercantilismo, que marca o início do capitalismo e estabelece o comércio em função das conquistas ultramarinas, as quais fortalece o sistema financeiro. 
Na verdade, a cultura renascentista sustentou-se em quatro pilares: o primeiro pilar é a razão como fonte de todo o conhecimento, a razão como capacidade de pensar abstratamente; segundo pilar é o empirismo como forma de provar as ideias e os fatos fora do domínio da evidências, explorando a razão, o pensamento abstrato e também como forma de caracterizar a experiência como determinante para a comprovação dos fatos, para retirá-los do campo da fé; o terceiro pilar é o ideal antropocêntrico, que compreende o homem como o centro do desenvolvimento do conhecimento científico, distanciando-se da prática teocêntrica, a partir da qual se desenvolvia um conhecimento baseado na fé; e o quarto pilar é o individualismo, que passou a destacar o homem como centro de toda a produção intelectual, artística e filosófica.
Observa-se, ao longo desse tempo, que ocorre um salto grandioso nas formas de pensar o mundo e de agir diante dele tanto nas artes, na ciência, na filosofia. O modus operandis humano já não é de subserviência e de subalternidade às ideias teocêntricas. O homem passa a se enxergar como a perfeita criação do Criador, capaz de atuar no mundo para o próprio progresso, sobretudo no campo da ciência, a partir da qual começa-se a descontruir todos os dogmas e medos seculares constituídos a partir do espírito religioso e dogmático no sentido de conduzir e dominar as civilizações.
O Renascimento reencontrou, sem dúvida, de certo modo, os valores do mundo greco-romano. Mas, ao mesmo tempo, tomou consciência do intransponivel fosso que o separava desses valores. Interpondo os espessos tempos obscuros entre a Antiguidade e a nova Idade de Ouro, relegou definitivamente para o passado como coisa já esgotada, uma civilização em que desejava inspirar-se, mas que não podia ressuscitar. O Renascimento, portanto, teve consciência histórica. Essa consciência era uma novidade e era sinal de uma mentalidade nova (Delumeau, 1994: 119).
Rossi (2001) demonstra quão qualitativo e cheio de adversidade fora essa passagem para uma nova forma de fazer ciência e pensar o mundo. Antes o mundo estava ligado intrinsicamente a uma filosofia teocêntrica ou a uma tentativa de explicar Deus pela filosofia, era outro paradigma. Ao observar o espaço físico, propriamente dito, a partir da invenção de alguns instrumentos, como a luneta e o microscópio, por exemplo, os filósofos/cientistas começam a questionar algumas certezas acerca do mundo físico e do mundo metafísico. Tais questionamentos, centrados em outros paradigmas, na verdade, à época, provocaram grandes reboliços nas esferas da política e do comando das sociedades, uma vez que as ditas certezas mantinham no poder aqueles que as determinavam. Vale lembrar que todo esse contexto social de valoração de uma filosofia teocêntrica constituiu, por muito tempo, o que Bachelard denominou de “obstáculos epistemológicos, uma vez que tais valores acabaram dificultando de certa forma o avanço da ciência.
Aquelas convicções que tendem a impedir toda a ruptura   e a descontinuidade no crescimento do saber científico e, por conseguinte, constituem obstáculos poderosíssimos para a afirmação de novas verdades” (Bachelard, aput Rossi. 2001: 29).
A tentativa de laicização da filosofia e da ciência teve, como principal embargo, a cultura teocêntrica. Rossi afirma que
a ciência moderna não nasceu no campo da generalização de observações empíricas, mas no terreno de uma análise capaz de abstrações, isto é, capaz de deixar o nível do sentido comum, das qualidades sensíveis e da experiência imediata (2001: 34).
Era essa a prática comum ao realizar a filosofia teocêntrica, uma vez que os raciocínios eram encaminhados para que se provasse a existência de Deus. Rossi aponta outro fator que dificultou o nascimento da ciência moderna: o desmerecimento do conhecimento mecânico em detrimento do conhecimento racional e dito científico. Esse desmerecimento tem a ver com “estrutura da sociedade e com a organização do trabalho” (2001: 39).
Rossi avança na reflexão no sentido de demonstrar como o conhecimento mecânico pode ser valorizado. Após questionar se “é possível que um homem possa chegar ao conhecimento dos efeitos naturais sem jamais ter lido livros escritos” (2001: 65), o autor apresenta uma série de exemplos em que homens simples, a partir da sua técnica, realizam descobertas importantes para o mundo científico.
No Ocidente, durante mais de mil anos, as figuras dominantes da cultura eram os santos, os monges, o professor, o militar, o médico, o artesão e o mágico. Depois passaram a integrar esse grupo os humanistas e os fidalgos. No século XVII inseriram-se nesse grupo o mecânico, o filósofo naturalista, o artista virtuoso ou livre empreendedor. Com a inserção desses novos membros, a ideia de conhecimento, o novo saber científico passa a colidir com o saber dos monges, dos escolásticos, dos humanistas e dos professores. Há uma forte oposição entre o conhecimento alquímico e o conhecimento dos mecânicos e dos engenheiros emerge, apesar desses dois tipos de conhecimento caminharem conjuntamente. O desenvolvimento das artes mecânicas e da ciência compõe o desenvolvimento ciência comprovando o que Hacking (2012) afirma em relação ao fato de a ciência não ser puramente lógica e racional.
Ao que parece há uma guerra pelo conhecimento. Assim como os monges antes pulverizavam a ideia de que há um conhecimento oculto não acessível a todos, os engenheiros, ao realizarem suas invenções, não davam a conhecer os meandros de suas descobertas, não pelas mesmas razões. Eles protegiam o conhecimento por uma questão econômica, os outros, ao que parece, protegiam por uma questão de poder. O mistério, para os místicos, era a justificativa para caracterizar as forças ocultas. Contudo busca-se desconstruir essa ideia do segredo como algo interessante, busca-se entender o segredo como um desvalor.
Em relação ao que move a ciência, observa-se que ela foi movida, nesses tempos, por artistas e práticos, pois eles realizavam suas produções pelo prazer, pela diversão, estimulados s projetarem algo novo que trouxesse conforto e diversão, não estavam envolvidos necessariamente com o progresso da ciência.
Interessante notar que o avanço das reflexões no campo da filosofia e da ciência se concretizam de tal forma que começam a desmoronar as crenças e os valores que sustentaram até aquele momento as ideologias teocêntricas. Muitos foram perseguidos, muitos foram condenados hereges. Os pensadores, aliando-se às novas tecnologias, buscavam explicar o mundo de uma forma mais concreta, a partir de observações empíricas do espaço e da natureza. O que se pode entender, a partir dos estudos, é que o desenvolvimento do pensamento matemático, da experiência no campo da física e dos ensaios alquímicos no campo da química fez um mundo teocêntrico ruir. Por mais que os filósofos tentassem justificar, explicar aspectos metafísicos por meio de experiências, fatos naturais, esse campo só pode ser desenvolvido no plano do raciocínio e para aqueles que acreditam no transcendental. Contudo, a ciência progride a partir do raciocínio matemático, das experiências empíricas e das observações naturais, as quais parecem não ser exaustivas. Há sempre algo novo a ser descoberto a partir de uma descoberta.
Observa-se, em Hacking (2012), uma preocupação em distinguir o processo evolutivo da ciência e o próprio fazer científico. Para construir essa distinção, ao discorrer sobre o progresso do conhecimento ele aponta para dois tipos de história: a externa e a interna. A interna seria aquela que é própria do fazer científico, talvez mais difícil de acompanhar em detrimento da quantidade de conhecimento que se agrega ao se constituir a ciência; a externa, destaque nesta reflexão, aponta para perspectiva histórica do ponto de vista social, político e econômico, compõe-se dos fatos sucessivamente que contribuíram de maneira interna para a evolução da ciência. Hacking (2012) ressalta que essas perspectivas estão intrinsicamente ligadas, uma se sobrepondo à outra, numa relação dialética. Não se produz conhecimento fora da história e não se produz conhecimento fora da ciência. “O conhecimento, em si mesmo, constitui uma entidade que evolui historicamente” (idem, 78).  
Considerando o contexto da revolução científica que começa a partir do século XV, Copérnico talvez tenha sido o precursor nessa conquista, porque ele, ao apontar as suas constatações, realizadas a partir de instrumentos mecânicos, revolucionou o estudo no campo da astronomia, fez ruir o céu que existia e criou uma polêmica em torno de suas teses. Interpretando outros filósofos, como Ptolomeu, Aristóteles, ele constrói uma nova teoria, contudo, receoso das controversas, humilde e humanista, ele a apresenta de forma mais reticente. Seguindo o caminho de Copérnico, Kepler, Tycho, Galilei, Giordano Bruno, Pascal, Descartes, Isaac Newton contribuíram significativamente para o desenvolvimento da ciência: alguns mais agressivos, outros mais reticentes, às vezes negando as teorias dos outros, às vezes, confirmando, mas sempre com a tenaz ideia de fazer a ciência avançar, mesmo quando a maioria deles estivera preso, por questões ideológicas, ao Cristianismo.
O auge desse momento acontece com as reflexões de Descartes, cujas ideias demarcam o que os estudiosos denominam de “revolução científica” e relacionam-se com o fazer científico de forma bastante objetiva. Tal objetividade é descrita no Discurso do Método em que se observa o passo a passo do pensar científico: a partir do momento em que se questiona a razão humana para educa-lo no processo de raciocinar sobre a verdade, buscando a melhor forma de compreender as ideias, deve-se colocar tudo em cheque, ou seja, deve-se duvidar de tudo.
A dúvida é o princípio de tudo inclusive da característica racional humana, uma vez que quem duvida duvida porque pensa, se se duvida, se pensa, se se pensa, existe-se, assim cria-se a máxima de Descartes: penso logo existo, cujo princípio é a dúvida. No Método cartesiano, há quatro etapas: questionamento das ideias – aquelas que passarem pelo crivo do questionamento, serem indubitáveis devem ser divididas, esquadrinhadas para melhor análise; a partir dessa divisão, deve-se realizar uma separação dessas ideias considerando as mais simples e as mais complexas, ou seja, para compreendê-las, é necessário buscar entender a gradação, a complexidade entre elas. O passo seguinte do Método de Descartes é realizar uma revisão de todo o processo realizando questionamento para se verificar as arestas acerca das questões postas inicialmente com o objetivo de garantir a segurança das respostas obtidas. Esse método tornou-se, na verdade, a base da Ciência Moderna.
A suposta revolução científica iniciada no século XV, que avançou no século XVI, acabou culminando, a partir de um processo de transformações tanto no pensamento, quanto nas formas de fazer a ciência, com as reflexões de Isaac Newton, o maior pensador do século XVIII. Nascido no fim do século XVII, Newton se destacou ao estudar a astronomia, a matemática, a alquimia, a ótica, a física. A partir de observações realizadas do espaço, por meio de instrumento específicos e por meio de cálculos matemáticos criados por ele mesmo, este pensador revoluciona a ciência propondo a teoria gravitacional do universo e outras teorias dentro da matemática. Muito ligado à ideologia cristã, Newton tenta provar matematicamente a existência de um Deus. Sem desmerecer todo o trabalho de Newton, é bom lembrar que ele foi sustentado por um avanço construído por outros precursores. Isso demonstra a perspectiva interna e externa do fazer científico estão realmente ligados.
Ao fim desse percurso histórico, na tentativa de mostrar como a filosofia, mesmo estando presa aos domínios da fé, foi se desprendendo da perspectiva  teocêntrica, destacam-se nomes importantes, que muitas vezes defenderam o cristianismo, a divindade e a bíblia, contudo acabaram por promover a laicização do pensamento filosófico e o desenvolvimento, paulatino, da ciência, ou seja, acabaram por promover uma mudança de paradigma nas formas de fazer ciência e filosofia, nas formas de compreender o mundo e o homem.

BIBLIOGRAFIA
DELUMEAU, Jean. A civilização do Renascimento. Tradução Manuel Ruas. Lisboa: Editora Estampa, 1994.
HACKING, Ian. Representar e intervir: tópicos introdutórios de filosofia da ciência natural. Tradução Pedro Rocha de Oliveira. Rio de Janeiro: EdUerj, 2012.
ROSSI, Paolo. O nascimento da ciência moderna na Europa. Tradução de Antonio Angonese. Bauru, São Paulo: EDUSC, 2001.


segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Vômito seco - um pedido de perdão a uma mãe que se foi.

Você morreu, mãe, e eu não chorei.

Perdoa-me por eu não ter chorado naquele dia, eu não podia chorar.

Não podia chorar, eu não sabia o que era a morte.
Mas depois, eu chorei a vida toda.

Eu chorei quando você não voltou.

Eu chorei as brincadeiras jocosas dos vizinhos por você ter preferido ir morar numa caixa.

Eu chorei o seu não estar aqui.

Eu chorei o seu colo.

Eu chorei a tristeza da casa da roça vazia de você.

Eu chorei nossas idas ao córrego.

Eu chorei a falta das suas orelhas no balanço da rede ao dormir.

Eu chorei a ausência de seus ensinamentos.

Eu chorei a falta de suas possíveis broncas e estímulos.

Eu chorei a falta da conversa materna.

Eu chorei o seu exemplo de maternidade.

Eu chorei o seu exemplo de conciliação.

Eu chorei a saudade do seu arroz com feijão.

Eu chorei o sabor dos biscoitos quentinhos no grande forno de quintal.

Eu chorei a falta do seu amor.


Eu chorei a nossa solidão cósmica - a sua e a minha.

Eu chorei, sem poder chorar.

Fizeram-me engolir o meu pranto e a minha tristeza.

O seu luto eu vivi na calada da noite, na solidão da enorme escola, na responsabilidade de ser a irmã que acolhe,  compreende e ajuda, no sonho da professora que me encantou, no quieto do quintal, debaixo da goiabeira, mais tarde no encantamento dos contos de fadas, das histórias de crianças órfãs abandonadas na floresta;  quando mocinha, no silêncio reverberante da palavra literária, na orfandade de filha e de uma filha.

Eu engoli, a seco,  no silêncio da noite, no quieto do quintal, na leitura e nos estudos dos livros, o luto que eu vivi toda uma vida.

Eu chorei a vida toda silenciosamente... um choro calado, pra dentro.

Fizeram-me forte para além dos meus braços e me deram limites a cumprir. Cumpri-os, sem paixão. Eu não podia  chorar. "Engole o choro, engole o choro". Aprendi a chorar baixinho, sofrido, calado, molhado para dentro, seco nos olhos. O choro foi a tristeza interna refletida no olhar e não a lágrima que reverbera face abaixo.

Hoje o vômito, primeiro, a seco, veio à tona... depois o vômito, o vômito do vômito fétido me fez expelir todo "engula o choro" que me desceram goela a baixo.

E hoje me liberto dessa dor que estava aqui engasgada, presente e forte, como se fosse parte necessária de mim, há 45 anos, por  não ter podido chorar o meu pranto quando fui capaz de compreender o que é a morte e, por consequência, compreender a SUA morte.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

A filosofia do contraditório em Blaise Pascal

 Ao analisar a história da humanidade, percebe-se a necessidade que o homem sempre teve de produzir conhecimento, seja para produzir ciência e tecnologia, seja para conhecer a si próprio. Para Pascal, com quem pretendemos dialogar nesta reflexão, há uma justificativa para a busca incansável pelo conhecimento realizada pelo homem, que é o fato de ele ter uma patologia: “a doença principal do homem é a curiosidade inquieta das coisas que não pode saber; e não é pior para ele permanecer no erro do que nessa curiosidade inútil” (41-2: 18, 2002). Partindo dessa ideia de Pascal, destaca-se que ele, tendo vivido no século XVII, sofreu, paradoxalmente, as consequências dessa doença chamada curiosidade.
Dessa forma, é necessário compreender o cenário político, cultural e filosófico que antecedeu a Era Moderna da história da humanidade, em que viveu Blaise Pascal. Esse momento da história da humanidade tempo revela-se bastante conflituoso; contudo, aberto às novas ideias, às mudanças necessárias para uma nova perspectiva de pensar o mundo por meio da razão e pela capacidade de realizar abstrações. Os séculos XIV e XV foram importantes em decorrência dos vários acontecimentos que levaram o homem a buscar o pensamento racional e a perspectiva antropocêntrica como forma de explicar o mundo, os conflitos humanos, as questões políticas, o fazer científico e, sobretudo, o pensar filosófico.
Reconhece-se que os pensadores desses séculos, Guilherme de Ockham,  Márcílio de Pádua, Alighieri, Petrarca, Nicolau de Cusa, Montaigne, Morus, Bocaccio, Rotherdan, entre outros, foram grandes empreendedores, porque a empreitada filosófica, cultural, social e política era contra um sistema robusto que fora construído ao longo de séculos e sustentado por grandes filósofos patrísticos e escolásticos, tais como Agostinho e Aquino, respectivamente,  os quais, a partir das ideias platônicas e aristotélicas, fundamentaram muito consistentemente as ideias teocêntricas. Nas palavras de   Rossi (2001), parece ter sido a Idade Média um período de poucas revoluções intelectuais, apesar de ter sido a época em que se deu a criação às grandes universidades, lugar de saberes privilegiados e que deram aos intelectuais a dignidade da remuneração.
O Medievo, claro, tem a sua importância cultural, sobretudo do ponto de vista filosófico e religioso. Vale lembrar que as lutas e as guerras, nesse contexto, foram empreendedoras no sentido de alargar o domínio de terras e, com isso, o poder econômico e político dos reinos vencedores. A sociedade era bastante estratificada: nobreza, clero e servos compunham as classes. A nobreza era composta pelos senhores feudais, ligados fortemente ao poder clerical, os quais determinavam juntos os dogmas religiosos e os compromissos sociais da classe subordinada, praticamente toda analfabeta. A arte era comprometida com os temas religiosos, assim como a filosofia. Dante teve grande destaca na elaboração da imagem do purgatório, do inferno, tão bem construídos pelo catolicismo.  Nessa época, citando White (apud Rossi, 2001: 15), vale lembrar que foram construídas inumeráveis e admiráveis igrejas e catedrais, bem como conventos e moinhos movidos a ventos e foram lavrados o campo a arado pesado e foi inventado o estribo que mudou a natureza dos combates. A economia girava em torno da produção agrícola, era uma sociedade fortemente agrária. O poder político e econômico estava, fortemente, ligado ao poder do clero, a forma de governo era absolutista.
Diante desse cenário e dos conflitos originados em função da luta pelo domínio de terras entre árabes e os romanos/europeus, os humanistas propuseram a questionar esse sistema e se colocaram numa perspectiva mais humanista diante das questões sociais. Destaca-se também a necessidade de eles se posicionarem diante também dos mistérios que justificavam, muitas vezes, as ações do grupo de pensadores do Medievo: a fé incondicional em um Deus que determina todos os acontecimentos no mundo, inclusive os abusos de poder por parte do próprio clero.
A evolução do pensamento humano alcança um patamar, antes, nunca visto. Os pensadores, inspirados pelo espírito grego, racionalista e pagão, desenvolvem o que foi denominado como ideário renascentista. O Renascimento, enquanto movimento cultural, político e filosófico, teve início no século XIV, com o apogeu no século XV e expandiu-se até o século XVII, ou seja, começa nos anos trezentos e segue até os anos seiscentos. A cultura renascentista, na verdade, inicia-se com a decadência do sistema feudal e absolutista e com a valorização do mercantilismo, que marca o início do capitalismo e estabelece o comércio em função das conquistas ultramarinas, as quais fortalece o sistema financeiro.  
Na verdade, a cultura renascentista sustentou-se em quatro pilares: o primeiro pilar é a razão como fonte de todo o conhecimento, a razão como capacidade de pensar abstratamente; segundo pilar é o empirismo como forma de provar as ideias e os fatos fora do domínio da evidências, explorando a razão, o pensamento abstrato e também como forma de caracterizar a experiência como determinante para a comprovação dos fatos, para retirá-los do campo da fé; o terceiro pilar é o ideal antropocêntrico, que compreende o homem como o centro do desenvolvimento do conhecimento científico, distanciando-se da prática teocêntrica, a partir da qual se desenvolvia um conhecimento baseado na fé; e o quarto pilar é o individualismo, que passou a destacar o homem como centro de toda a produção intelectual, artística e filosófica.
Observa-se, assim, que ocorre um salto grandioso nas formas de pensar o mundo e de agir diante dele tanto nas artes, na ciência, na filosofia. O modus operandis humano já não é de subserviência e de subalternidade às ideias teocêntricas. O homem passa a se enxergar como a perfeita criação do Criador, sendo capaz de atuar no mundo para o próprio progresso, sobretudo no campo da ciência, a partir da qual começa-se a descontruir os dogmas e medos seculares constituídos a partir do espírito religioso e dogmático no sentido de conduzir e dominar as civilizações.
Destacam-se, nesse movimento, algumas personalidades, no mundo das artes, Shakespeare, Cervantes, Gregório de Matos, Gângora, Quevedo, e no mundo da ciência e da filosofia, Copérnico, Galilei, Kepler, Tycho,  Pascal, Descartes. Essas personalidades acabaram por influenciarem umas às outras, numa relação de entusiasmo, às vezes, e de medo e autoridade, outras. Uns mais presos às ideias teocêntricas, outros mais contundentes na sua crítica ao dogmatismo religioso.
No século XVII, em função da insatisfação dos intelectuais com a perspectiva racionalista que não conseguia explicar os principais conflitos humanos, eclode, sobretudo nas artes, o estilo barroco. Nessa arte, o homem expõe o seu conflito entre a valorização do profano e do sagrado, entre a adoção da fé ou da razão para explicar o mundo e a si mesmo, entre a crença no homem em suas finitas possibilidades ou a crença em Deus e no seu supremo poder. Observa-se, tanto na arquitetura quanto na literatura, o jogo entre esses dois universos: o mundano e o celestial. O homem constrói inúmeras e imensas igrejas no sentido espalhar e revelar o poder de Deus. Nesse processo de produção arquitetônica, é necessário pensar matematicamente, logo o homem sente-se grandioso diante de si mesmo e tem a necessidade de, cada vez mais, por si só, realizar experiências matemáticas, científicas e crescer. O conflito está posto.
Nas raízes da grande revolução científica do século XVII, se situa aquela compenetração entre técnica e ciência que marcou (para o bem ou para o mal) a inteira civilização do Ocidente e que, nas formas que assumiu nos séculos XVII e XVIII (...) não existia tanto na civilização antiga como também naquela da Idade Média. (verificar a citação, Rossi, ver página).
Reconhece-se que a produção artística não está desvinculada da produção e de um ideário filosófico. Assim, ao se pensar na arte produzida no século XVII, compreende-se que ela é fruto das reflexões e do pensamento filosófico da época. Logo, o que se pode concluir é que se, na arte, o homem se revelava contraditório, na produção da filosofia não pode ser diferente. É o que tentaremos mostrar agora, considerando que alguns pensadores da filosofia, com certeza, influenciaram a produção artística da época, nesse modo paradoxal de ser e de pensar o mundo, a fé, Deus, o universo.
No referido século, como pensador, matemático, filósofo, destaca-se a figura de Blaise Pascal. Ao que se percebe, pelos seus estudos e escritos, foi um homem que se dividiu entre os clamores da fé e o pensamento racional. Essa dualidade pode ser decorrente de dois fatores: o científico/intelectual, cuja influência ele recebeu pela via teocêntrica e pela via antropocêntrica; e o conflito humano, individual, natural para pessoas que não se contentam com respostas superficiais para questões mais profundas.
Em sua biografia, consta que ele foi uma criança de inteligência extraordinária, além de questionador, apresentava réplicas inusitadas para questões sem respostas até aquela época. Cresceu uma pessoa curiosa, apesar de julgar a curiosidade como uma doença e uma atitude inútil, uma vez que não há conhecimento que não se consegue alcançar. Demonstrava-se insatisfeito com as superficialidades que eram dadas como justificativas para algumas questões relacionadas à filosofia, à fé e à ciência. Curiosidade e insatisfação parecem compor, logo de início, as suas ideias contraditórias. Já aos dezesseis anos, tinha escrito o Tratado sobre as Cônicas. Ele, observando-se como homem produtor de ciências, como grande matemático que foi, dividido entre as concepções idealistas e racionalistas do mundo, entendeu que há questões na vida humana que não podem ser explicadas pela razão. Isso explica bastante o seu caráter contraditório. Como estudioso da matemática, concebeu a primeira máquina de calcular da história da humanidade, provando que os conceitos abstratos que permeiam a mente humana podem se concretizar em matéria, em experiência e em máquinas.  
Considerando o espírito contraditório do autor, é possível reconhecer nos Pensamentos de Pascal, a dualidade característica do estilo barroco, que explora a ambiguidade, os paradoxos, o conflito entre a razão e a fé. Parte-se do princípio que arte e filosofia são indissociáveis, sobretudo para os pensadores do passado que, muitas vezes, reuniam no seu fazer a habilidade artística e a filosófica.
 Considerando que a linguagem artística, em que a conotação por meio das figuras de linguagem constitui o cerne e considerando que o discurso filosófico se concretiza a partir da linguagem, é possível reconhecer em alguns filósofos a arte de escrever literariamente ou, ainda, é possível reconhecer toda a influência da filosofia na arte. Dessa forma, ao ler Pascal, o que mais se destaca em seu discurso filosófico é o jogo com a linguagem figurada, a representação do contraditório que se dá a partir do uso da antítese e do paradoxo, figuras de linguagens predominantes no estilo barroco presente no homem do século XVII.
O forte espírito religioso de Blaise revela-se em vários momentos de sua obra, mesmo ele sendo um homem da matemática e da ciência, contradição bastante aparente, no seu discurso, observa-se uma fé inabalável nos preceitos da fé cristã. Para justificá-la, ele afirma que o fato de Jesus ter sido profetizado, ter vindo e vivido a profecia, o fato de muitos outros homens o adorarem até aquele tempo levam-no a crer cada vez mais na verdade dos livros sagrados, os quais perduram por muitos séculos; ele ainda afirma que “quanto mais ele os examina, mais descobre verdades” (*737: 235, 1984).
Entre essas verdades, ele aponta o fato de Deus querer do homem o exercício da humildade, da solidariedade e da caridade vivida por Jesus. Para ele, aquele que se afasta da caridade, mesmo em estado de oração, afasta-se dos ensinamentos de Cristo e, por consequência, afasta-se de Deus. Nas palavras de Pascal (1984), a forma de homem alcançar a paz e a felicidade é acreditar na divindade. Sem Deus, para ele, o homem é mau. Percebe-se, nessa concepção, uma ligação bastante forte com as ideias de Agostinho, para quem o bem só existe em Deus, o que não é bom não é de Deus, mas do homem. Da mesma forma, Pascal acredita que o homem sem Deus é um ser miserável, limitado, que o conhecimento das coisas naturais leva para o entendimento da grandeza de Deus, que é único que capaz de conhecer todas as coisas.
Que o homem, voltado para si próprio, considere o que é diante do que existe; que se encare como um ser extraviado neste canto afastado da natureza, e que, da pequena cela onde se acha preso, isto é, do universo, aprenda a avaliar em seu valor exato a terra, os reinos, as cidades e ele próprio. Que é um homem dentro do infinito? (*72: 51, 1984). 
Ao descrever o homem, Pascal afirma que ele é “naturalmente crédulo, incrédulo, tímido e temerário”, descreve o homem como dependente, desejoso da independência e um ser necessitado, por isso altivo. Nisso pode se reconhecer o quanto pulsa em Pascal a contradição, na mesma medida em que ele acredita na capacidade humana de produzir ciência, tal habilidade está submetida à uma finitude que move o homem para a busca de um Deus infinito. Para provar a infinitude de Deus e a finitude humana, paradoxo barroco vivido por muitos poetas e por muitos filósofos, Pascal afirma que Deus é inatingível e incompreensível pela razão justamente porque é infinito e sendo o homem finito tanto na sua existência, quanto na sua essência, não pode nunca alcançar o que é de Deus. Deus e a verdade são inatingíveis porque são infinitos e a razão humana, sento finita, não tem condições de alcançar aquilo que é maior que ela. Numa relação matematicamente lógica, Pascal desenvolve o mesmo raciocínio a partir do qual demonstra que a relação assimétrica entre o conhecimento do particular e do geral.
Quando queremos mostrar uma coisa geral, cumpre darmos a regra particular de um caso; mas, se queremos mostrar um caso particular, teremos de começar pela regra geral. Achamos sempre obscura a coisa que queremos provar e clara a que empregamos na prova; pois, quando nos propomos a provar alguma, antes de tudo nos obcecamos com a ideia de que ela é obscura mesmo, e, ao contrário, de que a outra, que deve prová-la é clara e, portanto, facilmente compreensível (45/46: 40, 2002).
 A sua obra é recheada de antíteses, algumas simples, como “os apóstolos foram enganados ou enganadores” (*802: 247, 1984), mas que não deixam de revelar o perfil contraditório de Pascal, que questiona a fé e a vida dos profetas na posição de homens de Deus. Ele, não tendo como negar ou afirmar a condição dos profetas prefere acreditar que eles tenham sido realmente pessoas virtuosas e verdadeiras, assim como prefere acreditar que para ser cristão precisa acreditar nos milagres, mesmo questionando que, em relação a milagres, “há os falsos e os verdadeiros” (*803: 248). Nessa afirmativa de Pascal, a sua contradição revela-se mais aparente, uma vez que, sendo um milagre, cuja crença acontece pela fé e não pela razão, ele não deixa de racionalizar acerca da possibilidade de existirem milagres falsos.
Nas palavras do pensador, ele desconfia “de todas as certezas dos sábios”. Afirma que Deus, enquanto verdade a ser conhecida, está fora do alcance do homem devido à mediocridade humana. A produção da ciência por meio de experimentos não diminui a mediocridade humana diante dos olhos de Deus. A ciência tem dois extremos que se tocam: a ignorância, pura e natural; e o conhecimento que, à medida que é construído, leva o homem a entender que nada sabe e não pode saber, a se reconhecer ignorante. Entre esses dois polos, há aqueles que, envernizados de sabedoria, se julgam sábios, julgam mal e nada sabem. Nas palavras do pensador “é muito mais belo saber alguma coisa de tudo do que saber tudo de alguma coisa; essa universalidade é a mais bela (45: 37, 2002). Tal afirmação reforça o caráter contraditório e religioso do filósofo, uma vez que ele enxerga a beleza na universalidade que está em Deus, que se dá a conhecer na particularidade e nunca na universalidade.
Esse jogo contraditório que se estabelece entre a razão e a fé, entre a compreensão de Deus e o seu conhecimento, entre o conhecimento geral e particular também pode ser percebida na sua compreensão acerca da linguagem, cujo “sentido muda segundo as palavras que o exprimem. Os sentidos recebem sua dignidade das palavras em vez de dar-lhes essa dignidade” (47:50, 1984). O paradoxo se estabelece na forma como ele compreende os sentidos que são mutáveis a partir das palavras que os exprimem e que passam a ter dignidade pelo uso das palavras. Nesse raciocínio também é perceptível o jogo com a lógica matemática aplicada ao universo da linguagem, uma vez que, quase sempre, pensa-se que o sentido é que dá dignidade às palavras. Pascal vem demonstrar justamente o contrário, é o sentido que recebe das palavras a dignidade. O sentido é particular e se estabelece a partir de um universo maior de palavras, as quais alterando-se, alteram-se também os sentidos. Nisso evidencia-se uma subserviência dos sentidos ao universo da palavra.
  A partir dessa reflexão, constata-se, no discurso de Pascal, o conflito barroco típico dos homens do século XVII: a tentativa de compreender o mundo e a verdade, a compreensão da infinitude do universo e de Deus e a finitude do homem e de suas formas de conhecer, a relação assimétrica (ou simétrica) entre o sentido e a palavra. Pascal acaba por nos mostrar que não se pode nunca alcançar o conhecimento em sua totalidade, mesmo avançando tanto em ciência e tecnologia, mesmo avançando no conhecimento do universo, o homem é uma fagulha incomensurável – um paradoxo pascalino – nesse universo astronomicamente diverso e difuso.

BIBLIOGRAFIA
ROSSI, Paolo. O nascimento da ciência moderna na Europa. Tradução de Antonio Angonese. Bauru, São Paulo: EDUSC, 2001.
PASCAL, Bleize. Pensamentos. Versão EbooksBrasil.com, 2002. 

____. Pensamentos. São Paulo: Abril Cultural, 1984.