sexta-feira, 17 de abril de 2009

O fenômeno da concordância





Observa-se, nas três placas acima, um probleminha de concordância. Contudo essa afirmativa depende do ponto de vista. É um fenômeno linguístico que poucos usam de acordo com a norma culta. Isso acontece devido às analogias que o falante faz quando usa a linguagem, ele não reconhece aí uma estrutura passiva como preescreve a gramática normativa.
Vamos ao raciocínio do usuário comum: Nessa estrutura há um verbo que, quando usado na voz ativa, precisa de complemento e naturalmente esse complemento é posto após o verbo, o que vem antes costuma ser o sujeito. Logo, ele imagina que não é necessário pluralizar o verbo. E por que se deve pluralizar o verbo?
Vamos ao raciocínio de acordo com a norma culta.
Na verdade esse fenômeno só é possível porque temos aí um verbo que exige um complemento sem auxílio de preposição - quando usado na voz ativa. E o que é voz ativa? É quando se expressa uma ação cujo referente (chamado de sujeito) é o agente, ou seja, pratica a ação.
Veja como ficaria essas frases na voz ativa:
Alguém amola tesouras e alicates.
Dona Lúcia joga búzios.
Alguém plastifica documentos.
Somente porque se tem aí, nesses casos, verbos que pedem complemento, transitam (precisam ir além de si mesmo para ter sentido completo) sem a presença da preposicão (de, para, a, com etc) é que se pode transformá-las em voz passiva, ou seja, colocar os respectivos complementos na função de referente (sujeito).
Veja como ficaria:
Tesouras e alicates são amolados por alguém.
Búzios são jogados por Dona Lúcia.
Documentos são plastificados por alguém.
Veja que, nessas estruturas, fica clara a intencionalidade do falante em destacar o agente ou o alvo da ação.
Como as últimas estruturas são muitos extensas e, no caso da propaganda, exige-se uma linguagem mais direta, o falante pode querer uma estrutura mais sintética, mais objetiva.
Para tanto, ele transforma as locuções verbais em apenas um verbo; usa apenas o verbo principal na flexão do verbo auxiliar, tendo respectivamente amolam, jogam e plastificam. E soma-se a esses verbos a partícula SE, a qual denomina-se pronome apassivador.
Tesouras e alicates, búzios, e documentos continuam sendo os respectivos referentes dessas açoes que também continuam na voz passiva.
Amolam-se alicates e tesouras.
Jogam-se búzios.
Plastificam-se documentos.
As expressões em destaque são postas depois do verbo para evitar ambiguidades. Mas é o que gera a grande confusão.
Veja um caso de ambiguidade:
Os deputados se agrediram.
Eles foram agredidos? Ou se agrediram?
O pronome em destaque é apassivador ou reflexivo?
Essa estrutura é mais comum para a voz ativa, quando o sujeito pratica a ação expressa pelo verbo. Para se evitar a ambiguidade, propõe a seguinte estrutura:
Agrediram-se os deputados.
Tal estrutura não dirime totalmente a possibilidade de ambiguidade; mas, associada a um contexto, pode evitar que se confudam as ideias.
E por que o uso dessas estrutura gera confusão?
Porque o falante as confunde com a estrutura Precisa-se de empregado(s), em que o verbo nunca vai para o plural, mesmo quando aquilo que vem depois esteja no plural. Nesse último caso, temos um verbo que exige complemento com o auxílio de preposição. Logo, não se pode transformar esse complemento em sujeito. O contrário do que acontece com os verbos das referidas placas.
Conforme a afirmação inicial, isso só é problema de acordo com a persepctiva; para muitos linguistas as estruturas das placas, apesar de não estarem adequadas ao padrão culto da língua, estão corretas, pois há que se considerar o raciocínio do usuário da língua; para muitos gramáticos conservadores, há um erro, ao que eu chamo aqui de inadequação, não como forma eufêmica, paliativa. Mas para afirmar que, dependendo da função social do texto, deve-se preocupar, e muito, com o uso da linguagem dentro do padrão culto.
Alguma dúvida?

Digite aqui o resto do post

3 comentários:

Edmilson disse...

Olá Rosa! Muito boa sua explicação sobre "voz ativa" e "passiva", tirei minhas dúvidas.Um forte abraço e até mais; não sei quando rsrsrsrs. Tchau.

Júlio disse...

Olá!
Estava com uma dúvida aqui... e não achei resposta clara no Google. Aí, pensei que seu blog podia dar uma alavancada nos acessos se tivesse uma seção tira-dúvidas... hehehe... é claro que ia te dar trabalho, mas é algo que você domina mesmo.
.
A minha dúvida era sobre a conjugação dos verbos "ter" na seguinte frase:
"Tem/têm coisas na vida que não tem/têm explicação."

Às vezes acho que os dois verbos "ter" têm o mesmo sujeito.

O que não tem* explicação? Essas coisas na vida que têm/existem.

* engraçado que o tem aqui ficou no singular.

Mas, reescrevendo com o verbo existir:
"Existem coisas na vida que não tem/têm explicação".
"Existem coisas na vida. Elas não têm explicação".

Então, o correto seria:
"Têm coisas na vida que não têm explicação"?

Se quiser escrever um post sobre isso, eu te mando o trecho do poema ao qual o verso pertence, pra servir de mote pra sua explicação.

Bjos.

Rosamélia disse...

Já respondi a sua dúvida. beijo