segunda-feira, 20 de abril de 2009

Madame Bovary

Por Rosamélia
É um romance inovador, escrito por Gustave Flaubert, publicado em 1857 na França. Inaugura uma nova forma de escrever no mundo, desligada dos aspectos subjetivos tão em voga até aquela época, contudo partindo de uma denúncia do comportamento feminino que se deixa envolver em demasia pelo sentimento. O argumento em que se constrói a narrativa não é somente a traição; mas, sim, o drama existencialista que a protagonista, Emma Bovary, vive. Ela nunca se revela satisfeita com aquilo que está a seu alcance. Além disso, o romance é construído a partir da ideia de uma mulher balzaquiana, sonhadora, que, aos 30 anos, não se vê realizada no casamento e, com o pé firme na sua realidade, busca a satifsfação plena, perde o medo de aventurar-se. Emma é assim, sonhadora, porém aventureira e, ao mesmo tempo, insatisfeita, já que não consegue a felicidade no casamento; também não a consegue na ascenção social. Percebe-se, no início da narrativa, que ela enxerga no matrimônio uma forma de ascenção; antes de se casar, ela é, simplesmente, uma camponesa e após o casamento, passa a viver em pequenos lugarejos, até chegar a viver em Yonville (uma cidade de médio porte). Ela muito menos consegue a sonhada satisfação nas relações amorosas extraconjungais, apesar de desejar, ardentemente, viver uma história de amor que dê sentido e singularidade à sua vida. Já no início da história, percebe-se o espírito insatisfeito de Emma, que seduz Charles Bovary buscando uma vida citadina mais agradável. A convivência revela-lhe traços da personalidade do marido: a mediocridade e a fraqueza. Ela não hesita em traí-lo. Emma, contudo, busca um amor no qual possa se realizar. Nas aventuras com os amantes, ela não deixa de revelar o seu espírito balzaquiano, de mulher que deseja viver uma grande paixão e acredita nisso tenazmente. E mesmo em suas paixões torrenciais, não se sente realizada.
O enredo, dividido em três partes, desenvolve-se quando Emma, uma simples dona de casa, sonhadoramente, trai o marido em busca da felicidade; sentimento e comportamento inadmissíveis para os rígidos padrões do século XIX.
O romance de Flaubert o leva ao tribunal sendo acusado de imoralidade, blasfêmia, pois era uma época em que as mulheres ainda estavam proibidas de expressar sentimentos e desejos, não participavam da vida política, eram criadas e educadas para serem apenas esposas, mães e donas-de-casa; Emma Bovary subverte todos esses valores. O romance é, além de um análise do drama existencialista feminino, também uma denúncia do casamento; instituição social que, já naquela época, declinava ao fracasso. A atitude subversiva de Emma ocorre inspirada nas leituras de romances românticos. A leitura é a forma pela qual a protagonista escapa de seu mundinho medíocre, mas também é o que a condena. A leitura é o fato que desencadeia toda sucessão de outros fatos; o deslumbramento, a necessidade de viver e de ser feliz; a insatisfação com a mediocridade de sua vida e a consciência dessa insatisfação. Todos esses fatos desencadeiam situações que colocam Emma num beco sem saída: endividada pelo excesso de vaidade, mal vista socialmente pelo adultério. Tal situação deixa a protagonista acuada e motiva o suicídio. O final da narrativa é extremamente belo, minuciosamente detalhado, mostra-nos o sofrimento de Emma que, até no leito de morte, não deixa de revelar o grande drama da vida humana: a preocupação com satisfação plena. Vale a pena conferir.

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4 comentários:

Thiago Zucarini disse...

Muito bom Rosa!! Gostei de sua análise sobre esse ótimo romance, é bastante fiel

Abraços, ZuK.

José Heitor Santiago disse...

Não li ainda Madame Bovary, mas depois da bela descrição sobre a obra de Gustave Flaubert, fiquei curioso e desperto para lê-lo.

Abraços poema,

jhs

Júlio disse...

Ainda não li o romance, mas existe tenho em casa o filme de 1949, do diretor Vincente Minnelli, muito fiel à obra e bem quisto pela crítica. Além desse, posso indicar um filme mais recente, livremente baseado no Madame Bovary, chamado Little Children (Pecados Íntimos, em português). Este segundo é um trabalho que vale a pena conferir mesmo se você não gosta de filmes baseados em livros, primeiro porque não tenta transportar o livro pra tela, segundo porque é um ótimo drama, denso e delicado, com boas atuações.

Júlio disse...

Ah, ainda sobre o Pecados Íntimos, há uma cena em que a protagonista está num clube de leitura e elas estão descutindo o Madame Bovary.