quinta-feira, 27 de julho de 2017

LETRAMENTO E EDUCAÇÃO

Por Rosa Amélia
Em ambiente de ensino, a ação de letrar e as preocupações com o letramento têm ganhado relevância, uma vez que, cada vez mais, tem-se compreendido que a pedagogia centrada no letramento ultrapassa os limites da alfabetização e ganha corpo nas diversas áreas do conhecimento. Para Magda Soares (2000), o letramento consiste na condição que o sujeito apresenta de atuar nas práticas sociais por meio da leitura e da escrita. Claro e evidente que para tanto o sujeito precisa ser alfabetizado, precisa aprender um código linguístico, precisa dominar a codificação da fala e elaborar a decodificação da escrita; mas o letramento não se resume a isso. 
O professor alfabetizador, com certeza, é a base fundamental para o desenvolvimento do letramento dentro do contexto escolar. Contudo, vale lembrar, se não houver um trabalho consistente em relação à leitura enquanto processo de interpretação, em que se pressupõem a (de)codificação, o entendimento, a compreensão, a interpretação, a generalização do que se lê, o processo de alfabetização não garante o desenvolvimento do letramento. Nesse sentido, muitas vezes, as atividades relacionadas ao letramento e suas responsabilidades ficam restritas ao trabalho desenvolvido pelo professor da área de linguagem, especificamente o de Língua Portuguesa.
Observa-se, no entanto, que letrar não é competência apenas do professor alfabetizador, muito menos se restringe às atividades relacionadas ao estudo da linguagem. Letrar ultrapassa todas as ações realizadas por esses dois profissionais, uma vez que o primeiro alfabetiza – ensina o código – e o outro trabalha questões de leitura e interpretação muito restritas ao campo da linguagem e da arte literária. E é impossível para o professor de Língua trabalhar questões de leitura e interpretação em todos os campos do conhecimento. Ele pode até tentar; mas é, praticamente, inconcebível que isso se realize em função de uma série de questões, que passam, inclusive, pela formação do referido profissional. 
Qualquer professor, inclusive os de área específica ou de área técnica, pode e deve trabalhar para a composição do letramento dos estudantes. Na escola, ouve-se muito que o estudante não sabe isso ou aquilo, sendo que esse isso ou aquilo são pré-requisito para se avançar; na escola, observa-se muito a busca de responsabilidades pelos insucessos dos alunos; contudo também há bastante inércia no que se refere às práticas docentes relacionadas aos processos de ensino e de aprendizagem.
O que fazer diante de um cenário em que os estudantes foram alfabetizados, mas não foram letrados? Diante dessa pergunta, vale destacar também que o letramento é processo e não se finda nunca. Qualquer pessoa que se mantém envolvida em processos de leitura e de escrita na sociedade permanece em contínuo processo de letramento, ou seja, permanece sempre aprendendo algo novo a partir da leitura e a respeito da escrita.
Voltando à pergunta anterior, para respondê-la, talvez seja necessário pensar que, se os alunos já foram alfabetizados, mas seguiram para séries mais avançadas sem desenvolver as competências de leitura e de escrita, os professores, de um modo geral, devem desenvolver atividades de leitura e de escrita a partir das quais possa se promover o letramento relacionado às suas áreas.
Isso parece ser interessante, uma vez que se o professor de Ciências trabalha a leitura e a escrita, ele vai explorar questões específicas do letramento nessa área; se os professores de História e de Geografia atuam da mesma forma, há a possibilidade de se desenvolver o letramento também nessas áreas; se o professor de Matemática, de Física e de Química também atuam contemplando a prática da leitura e da escrita, com certeza, estarão trabalhando para o desenvolvimento do letramento. Da mesma forma, pode se pensar nos professores das áreas específicas (agricultura, pecuária, agroecologia, indústria, alimentação, produção moveleira, meio ambiente, engenharia, gastronomia, tecnologia da informação, informática, mecânica etc.), os quais podem trabalhar de modo a promover a prática da leitura e da escrita de acordo com as necessidades acadêmicas e profissionais de cada setor de atuação.
Para isso acontecer, tais professores devem sair da postura de meros expositores de informação, para promover atividades que envolvam os estudantes como coprodutores e sujeitos capazes de pensar sobre o que leem e o que escrevem, capazes de refletir acerca do conteúdo sobre o qual leem e sobre o qual precisam escrever, devem entender a necessidade da escrita na elevação do conhecimento dos estudantes, devem trabalhar para ampliar o conhecimento deles a partir de atividades letradoras e não meramente repetidoras e mecânicas, como, costumeiramente, acontece. 
Dito dessa forma, parece bastante fácil transformar as ações educativas no sentido de promover o letramento. Entretanto sabemos que não é tão simples, uma vez que vem se repetindo um modelo de ensino-aprendizagem bastante tradicional e no qual se acredita, em muitas situações, ser a melhor forma de promover a aprendizagem do aluno, de educá-lo e de ensiná-lo. Sabe-se que nem sempre somos bem-sucedidos. Falhamos enquanto professores letradores, basta observar o quanto de alunos temos, nas nossas escolas, com dificuldades de ler e de escrever textos nas diversas áreas do conhecimento e a partir das inúmeras situações sociais em que estão inseridos. 
O que fazer então diante dessa consciência? Abandonar todos os métodos tradicionais e buscar práticas inovadoras centradas sobretudo na tecnologia? Dar aulas show usando os recursos da tecnologia para possibilitar um falso envolvimento do aluno nas estratégias de aprendizagem? Não. Nesse último caso, é salutar ressaltar que o uso de alguns recursos tecnológicos não muda a prática docente. Ela, como se pode observar, continua expositiva. Talvez seja mais pirotécnica a depender dos recursos que se usam, por exemplo, recursos audiovisuais – como Datashow ou Vídeo-aulas – que, cada vez mais, colocam o estudante como mero expectador de aulas das quais ele não participa ativamente. 
É necessário que o professor seja crítico em relação à sua prática, capaz de refletir sobre os modos como ensina e sobre os modos como se aprende. Aprender hoje é diferente de aprender como se aprendia no passado, devido a diversos fatores, entre eles o excesso de informação a que se tem a dispor. Tal excesso de informação acaba por eliminar as fronteiras entre as áreas do conhecimento. Associado a isso ainda temos o fato de que a tecnologia contribui para o hibridismo dos textos que marcam a necessidade de uma articulação muito maior para a compreensão. 
Nesse sentido, o professor, além de ter uma postura reflexiva acerca da forma como ensina, deve valorizar estas questões relacionadas às fronteiras do conhecimento e deve pôr-se em constante processo de formação. Sendo o conhecimento sem fronteiras, as formas de aprender e de ensinar também o são. Tal afirmativa não vale somente para o aluno, vale também para o professor, que deve deixar a atitude de detentor e transmissor e colocar-se numa postura de mediador na construção do conhecimento. Nesse sentido, ele, ao ensinar, aprender e; ao aprender, é capaz de ensinar com mais sucesso. O professor que se coloca na posição de constante aprendiz é capaz de, mais rapidamente, se colocar na posição do estudante.
Para concluir, considerando tal contexto em que se situam aluno e professor, observa-se que a aprendizagem se constitui pela mediação, em que o planejamento do professor, a orientação de estudo e de trabalho possam promover atividades de leitura, de escrita e de resolução de problemas/questões que façam sentido para a vida do estudante. Mais importante que transmitir o conhecimento, é primoroso que o professor consiga mediar a construção do conhecimento, porque, dessa forma, ele trabalha tanto os conteúdos específicos de sua área, quanto as habilidades de leitura, de escrita, a autonomia, a capacidade de articulação e de generalização. Nesse sentido, o trabalho do professor não está circunscrito aos conteúdos de sua área, mas desenvolve o letramento numa perspectiva mais abrangente. 

BIBLIOGRAFIA
ARROYO, Miguel G. “Experiências de inovação educativa: o currículo na prática da escola”. In: Moreira. A. F. B. (Org.) Currículo: políticas e práticas. Campinas: Papirus, 2013.  
KLEIMAN  Ângela  e  MORAES,  Silvia  E.  Leitura  e  interdisciplinaridade.  Tecendo redes nos projetos  da escola.São Paulo: Mercado das Letras, 2003. 
KLEIMAN Ângela. Oficina de leitura. São paulo: Editora Pontes, 2004.
PERISSÉ, Gabriel. A arte da palavra: como criar um estilo pessoal na comunicação escrita. Barueri: Manole, 2003.
______. Ler, aprender e escrever. São Paulo: Arte & Ciência, 2004.
______. Literatura e educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.
SILVA, Ezequiel Teodoro da. Leitura na escola e na biblioteca. Campinas: Editora Papirus, 1986.
____. O ato de ler. Fundamentos psicológicos para uma nova pedagogia da leitura. 8ª edição, São Paulo: 1981.
SILVA, Maurício. Repensando a leitura na escola. Um outro mosaico. 3ª ed. Niterói: EduFF, 2002.
SOARES, Magda. Letramento. Um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.
______. “Leitura e democracia cultural”. In: Democratizando a leitura: pesquisas e práticas. Coleção Literatura e Educação. Belo Horizonte: Autêntica/Ceale/FaE/UFMG, 2008.  P 17 a 32.
SOLÉ, Isabel. Estratégias de leitura. 6ª edição. Porto Alegre: Artmed, 1988.
ROJO, Roxane. Letramentos múltiplos, escola e inclusão social. São Paulo: Parábola Editorial, 2009.
______. Falando ao pé da letra: a constituição da narrativa e do letramento. São Paulo: Editorial, 2010.
______. & MOURA, Eduardo. Multiletramentos na escola. São Paulo: Parábola Editorial, 2012. 

Nenhum comentário: