quarta-feira, 10 de julho de 2019

Ler para ser: uma questão de opção

Ler para ser: uma questão de opção


Por: Rosa Amélia Silva

Ler é emprenhar-se de idéias, escrever é engendrá-las. Entre esses dois atos, o segundo parece mais difícil. E acredito que não seja fácil para ninguém. Clarice Lispector, ao ser questionada acerca de seu método de escrita, disse que, por muito tempo, não tinha método, as idéias vinham e, muitas vezes, se perdiam pela falta de registro. Quando tomou consciência disso, passou a registrá-las, tomar nota de tudo o que lhe ocorria. Descobriu sozinha seu método: tomava nota das idéias, seguindo-as apenas pela inspiração, para depois descobrir o que queria (Perissé, 2004: 75). Sou lispectoriana: as idéias vêm; se não as anoto, elas fogem de mim, perdem-se no meio da minha vida. Por isso, quando elas dão o ar da graça e eu as julgo importantes, apressadamente, registro-as, mesmo que fragmentadas, para não perdê-las entre tantas outras e poder engendrá-las com mais carinho.
E ler? Ler é fácil? Há uma grande diferença entre o ato de ler e o de escrever, apesar de este ser uma conseqüência daquele e de apresentarem uma relação de complementaridade. Segundo Yunes (2003: 7), a leitura antecede a escrita e a primeira é matéria-prima da segunda. Ler revela-se fácil, porque se lê o mundo, a vida, as pessoas, os desejos, as palavras; porque somos sensíveis e captamos ou rejeitamos as mensagens. Não se deve esquecer que o ato de rejeitar ou o de aceitar uma mensagem são formas de ler o mundo. Ler é sentir. Escrever é expor sentimentos. O sentir é o sujeito consigo mesmo. Sou eu comigo mesma, descobrindo-me, preenchendo-me, acariciando-me. O escrever é o sujeito com o outro. Sou eu e o outro. Nesse caso, eu posso me revelar ou me encobrir. Não sou a leitora em potencial, sou expositora de mim mesma, de minhas leituras, de minhas experiências. Quem me lê é outro por meio de minhas palavras.
A leitura é uma atividade própria da natureza humana. Ler é uma questão de sobrevivência (Yunes, 42). Por isso essa prática se torna mais fácil, principalmente quando se pensa em leitura de maneira ampla, considerando os signos sob todas as formas, manifestações e ocorrências. Quando se
pensa na leitura da palavra, a configuração do processo é peculiar. Por quê? As palavras são mirabolantes, elas nos falham, elas nos vêm aos montes, desejosas de serem expressas, elas nos traem, elas nos revelam segredos, elas segredam a vida. Elas expressam o tudo e o nada. Isso porque são polissêmicas e polifônicas: ricas, pobres, fortes, fracas, positivas, pejorativas, ambíguas e fascinantes. Por meio delas, elabora-se a vida, para representá-la e narrá-la aos outros. Dessa maneira, ler é fartar-se, encher-se de sentidos, consumi-los, pouco a pouco e ardentemente. Escrever é – ou deveria ser – oferecer-se ao outro, entregando-se a ele lentamente. Segundo Francis Bacon (Apud: Vieira et al, 2007: 35), a leitura torna o homem completo; a conversação o torna ágil; e o escrever dá-lhe precisão.
Em decorrência de alguns estereótipos acerca da leitura no Brasil como: adolescentes não lêem, não gostam de ler, têm preguiça de ler e por isso não sabem escrever, faz-se necessário repensar a concepção de leitura na escola e na vida, já que a sociedade pós-moderna se encontra em um ritmo tão acelerado de inovações tecnológicas, que as formas de ler e escrever apropriadas e desenvolvidas nos séculos passados já não são tão profícuas e eficazes. As novas tecnologias – que exploram as imagens visuais e os sons – exigem nova atitude do indivíduo, segundo Rocha (2007: 35), o mundo das imagens e dos sons tornam o homem mais no mundo.
A textualidade eletrônica revela um novo leitor, porque a era digital coloca ao homem a possibilidade de leitura de vários gêneros sob o mesmo suporte, sem hierarquia entre eles. Segundo Chartier (2002: 108), o autor de uma obra pode desenvolver sua argumentação segundo uma lógica que não é mais linear e dedutiva, como acontece no livro modo códex, ela se constrói de forma aberta, expandida e relacional. E assim também constitui o novo leitor em sua prática de leitura, com uma linearidade determinada pelo seu viés de suas expectativas, não mais do autor. A sociedade pós-moderna exige que o indivíduo seja capaz de ler e escrever nas diversas esferas da comunicação e que, sobretudo, seja capaz de criar o próprio caminho para a construção do conhecimento exigido em cada contexto e em cada ato comunicativo, seja de leitura ou escrita.
Com o propósito de analisar a prática de leitura literária ou não literária nas escolas e a concepção de leitura entre os jovens estudantes no contexto brasileiro, este artigo explora textos produzidos em concurso público1 para o cargo de analista do Ministério de Ciência e Tecnologia que, de certa forma, esfacelam os já citados estereótipos.
Para começar tal reflexão, é preciso ressaltar a visão que se tem acerca da importância da leitura na vida humana, sobretudo da leitura literária,
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O desembaraço com a leitura é a condição precípua do desenvolvimento da capacidade de analisar e compreender o mundo em que nos inserimos e de expressar fluentemente nossas idéias e opiniões.


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A leitura é em sua essência uma atitude dialogal em que o leitor, ao interpretar a mensagem do autor, reconstrói e adapta suas próprias estruturas de compreensão do mundo.


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A leitura é uma viagem que exercita a imaginação.


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A leitura pode ser e é um enorme prazer.


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Além do prazer da arte, a literatura pode proporcionar um benefício indireto adicional: com a hábito da leitura estabelecido, exercita-se a leitura para outros fins, sejam acadêmicos ou para a formação feral.


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A importância da leitura no desenvolvimento do ser humano está totalmente comprovada. As pessoas que lêem freqüentemente apresentam um uso adequado do idioma, um vocabulário enriquecido, assim como desenvolvem grande poder de análise e interpretação de idéias, de criação e interação com novas realidades, características fundamentais em épocas de transformações contínuas e profundas.


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A leitura é, sem dúvida, um instrumento importante na formação cultural e acadêmica dos indivíduos, pois, através dela, desenvolve-se o potencial crítico, a capacidade de argumentação, agregam-se novos conhecimentos, amplia-se o vocabulário e aprimora-se a redação.


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Ler é, portanto, um trabalho criativo que pode trazer muita diversão. Para isto, é preciso compreender o que está escrito e interagir com o objeto de leitura.
Uma pessoa que tem contato constante com a literatura naturalmente desenvolve melhor sua comunicação escrita. Não há maneira mais eficaz de se aprender a redigir um bom texto do que através da leitura de obras com qualidade. Daí a importância dos clássicos literários. Além disso, a fluência escrita traz também uma maior capacidade de comunicação oral.


De acordo com idéias extraídas dos fragmentos, percebe-se uma consciência coletiva em relação à prática da leitura, não somente pelo prazer que ela proporciona, pelo estímulo à criatividade, pelo desenvolvimento da capacidade compreensiva do mundo, como também pelo desenvolvimento lingüístico oral e escrito, pelo desenvolvimento da capacidade cognitiva e, conseqüentemente, pelo desenvolvimento acadêmico e profissional do leitor. A idéia de que ler é uma necessidade de extrema importância porque contribui para o crescimento sociocultural, econômico, emocional do indivíduo independe de época e de situação. O homem, pelo que demonstra os argumentos, valoriza a leitura e, segundo Yunes (2003: 7), concebe a escrita como marco entre pré-história e história, além de considerá-la instituidora da civilização. Sobretudo com o advento da imprensa, durante a revolução industrial, o homem tem cada vez mais valorizado a escrita como forma de registro cultural. Houve um tempo em que só o mundo concreto era dado à leitura, hoje o texto sob diferentes suportes e modos apresenta inúmeras possibilidades de leitura e, por conseqüência, de registro. Com o avanço da tecnologia, a linguagem escrita se associa ao imagético, amplia a necessidade de compreensão das diferentes vozes que compõem os discursos sociais. A realização efetiva da leitura depende da capacidade do leitor em acionar os seus conhecimentos de mundo, de sua capacidade criativa de exercitar o jogo de significações da linguagem constituídas culturalmente.
Atualmente, o indivíduo deve ser capaz de ler todas as modalidades de textos e ainda ser capaz de acionar conhecimentos das diversas áreas: política, economia, arte, cultura etc., para construir o percurso de sua interpretação para os textos. Não basta que o leitor centre-se somente na linguagem escrita. O leitor deve compreender e interpretar um repertório muito mais abrangente de signos, os quais representam metáforas culturais construídas por vozes inominadas e que formam a identidade coletiva. E ainda deve-se considerar que “quem lê o faz com toda a sua carga pessoal de vida e experiência, consciente ou não dela, e atribui ao lido as marcas pessoais de memória, intelectual e emocional. (Yunes, 2003: 10) A essa capacidade Vieira denomina multiletramento.2
A multimodalidade textual3 caracteriza o mundo em que se pressuponha viver o indivíduo multiletrado, aquele que se vale de todos modos e suportes textuais para produzir o sentido. E essa capacidade a qual muitos julgam de facilitadora do processo de leitura de textos pode ser um empecilho, já que para que a pessoa realize de fato as suas leituras vale-se dessa condição que, muitas vezes, é desconsiderada no trabalho pedagógico. Evidencia-se essa consciência no questionamento realizado pelo candidato a seguir


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Será que os jovens estão realmente fugindo da leitura, ou a estão executando de outras maneiras?


A pergunta realizada põe em cheque os já ditos clichês construídos socialmente e associada à sociedade atual, torna-se retórica, já que resposta parece óbvia demais quando, na era digital, observa-se a prática da leitura sob diferentes formatos, permeada por inúmeras vozes, muitas vezes, irreconhecidas, devido ao labirinto virtual sob o qual acontecem. Isso, de certa forma, parece enfraquecer o valor da leitura do texto escrito, do texto literário, canônico; porém, deve ser reconhecido como um recurso favorecedor a leitura, já que o leitor cria novas maneiras de ler os textos. O que fica registrado em:


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Se desejamos estimular as novas gerações a desenvolverem o hábito da leitura, devemos articular esta atividade às demais formas culturais contemporâneas – internet, televisão, jogos computadorizados, gibis – de modo que elas, juntas, formem um circuito reativo no qual cada atividade estimula as demais.


Máscara 2168
Livros herméticos, de leitura cansativa, parecem perder seu lugar, abrindo espaço para uma leitura mais dinâmica e atual.


Máscara 2599
O hábito de ler deve ser estimulado desde a infância, através de livros ilustrados e divertidos, além de – e por que não? – gibis! Afinal, esta também é uma forma de leitura.


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Um dos grandes erros do ensino pedagógico é a obrigação de ler livros clássicos impostos a um adolescente, por exemplo, de treze anos. E evidente que estes livros são belíssimos, mas para um adolescente de treze anos é complicada a compreensão da sutileza dos escritos e ele geralmente se aborrece com a linguagem arcaica e com essas histórias tão distantes de seus interesses.


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Não querendo desmerecer os clássicos que são muito importantes para a formação de uma pessoa e têm um valor inestimável, mas um jovem só vai conseguir ler um clássico depois de criar um hábito, e isso só vai ocorrer no momento em que encontrar livros que retratem sua realidade e os tempos em que vivem, e que sejam tão dinâmicos quanto eles.
(...)
Não é por isso que a leitura perdeu o seu lugar, pois na verdade, ela não perdeu, apenas está implícita no dia-a-dia decomposta nas atividades mais comuns. A leitura no formato tradicional não deve ser, de maneira alguma, ser deixada de lado, deve ser incentivada, pois seria ótimo conseguir unir o lazer que ela proporciona ao benefício que ela gera.


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A televisão, os gibis, a “internet”, devem ser vistos como aliados e não como concorrentes desleais dos livros, estimulando o jovem a buscar a leitura, pois, ao contrário do que muitos pensam, o gosto pelos livros não está morto. Fenômenos editoriais recentes como “Harry Potter” comprovam o fato. Crianças aguardam o próximo volume das aventuras da personagem tão ansiosamente quanto o próximo videogame de Pockemon


Infere-se também, a partir desses argumentos, que os concursandos, além de defenderem a existência de um leitor, atestam para a necessidade de se reconhecer a leitura como um processo. Ninguém nasce sabendo ler, as pessoas não nascem com autonomia de leitura e cada leitor produz, para o que texto que lê, o sentido que pode (Guedes, 2006: 70), ou seja, interpreta os textos de acordo com o seu capital cultural e suas experiências. As pessoas crescem lendo e isso significa que elas estão sempre, de alguma forma, em processo de aprendizagem. O comportamento leitor deve ser estimulado gradativamente, respeitando universo de quem lê, suas experiências individuais e coletivas, seu horizonte de expectativas, para, à medida que ele cresça psicológica, espiritual e cognitivamente, possa ser capaz de exigir um novo e mais amplo repertório de leitura, levando-o tanto à identificação com as idéias expostas em um novo texto quanto a um possível estranhamento cuja inquietação provocada pode aprisionar o leitor estimulando-o a ampliar os seus horizontes de expectativas, a realizar novas leituras, a propor reflexões e elaborar possíveis elucubrações que justifiquem os conflitos existenciais humanos, como defende Jauss (1994:?), pensador da Estética da Recepção e alguns nomes desconhecidos, mas tão conscientes acerca desse assunto quanto esse teórico, exemplificados em:
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A leitura é uma das atividades mais nobres desempenhadas pelo ser humano, pois ela demanda conhecimento do código empregado, interpretação de texto, associação de idéias, reflexão, criação de novos conhecimentos, mudanças de valores e comportamentos, criatividade. E para que o ato de ler possa se dar plenamente, é preciso que as pessoas sejam capazes de realizar todas essas tarefas intelectuais.


Máscara 0360
Ele – o jovem – precisa ter estímulos, precisa compreender que obtém benefícios da leitura. Mas quais são os benefícios que a leitura pode oferecer? E podemos responder: lazer e ganho de conhecimento.


Contudo, para isso, é essencial encontrar e incorporar em nossa biografia livros que nos motive a pensar, a imaginar, a desejar, a sentir, a criticar, a formular, a refutar, a especular, por em ação a nossa interioridade e isso só vai ocorrer quando formos provocados, estimulados e respeitados em nossos limites imediatos e nas escolhas que faremos na construção do comportamento leitor.
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O sucesso avassalador das aventuras de Harry Potter, o bruxo mirim mais famoso do mundo, está servindo para desmentir a idéia de que a geração atual não gosta de ler. Ela gosta e muito. Faltavam-lhe somente orientação na escola e livros que estivessem mais identificados com o universo interior de seus leitores.
Quantas pessoas se lembram com prazer da obrigatória leitura dos clássicos nos tempos de colégio? Poucas, com certeza. A grande maioria não deseja nem ouvir falar de Machado de Assis. Por quê? (...)
Para os alunos em geral, a passagem das historinhas de Lygia Bojunga Nunes para os romances de Machado de Assis é demasiadamente brusca, quase agressiva. Um dia se lê Bisa Bia Bisa Bel no outro, aparece a poesia de Gregório de Matos. Fica difícil para o aluno não se perder pelo caminho. (...)
Um dos maiores escritores brasileiros , Carlos Drummond de Andrade, não iniciou sua vida literária lendo Proust, mas sim a história de Robson Crusoé.


A partir da realidade de cada um, o ato de ler textos que exploram as narrativas mágicas, de ficção apenas, aquelas que não são de nenhuma maneira transfiguração da realidade humana, não deve ser entendido como atividade rasa. Pelo contrário, esse tipo de leitura faz parte de um processo, no qual o leitor, à medida que lê, torna-se mais exigente e assim buscará leituras mais reflexivas, que contribuirão para a resolução de seus conflitos individuais e sociais, levando-o a compreender o mundo, a própria existência, o sobrenatural, a essência do inexplicável, tornando-o mais sensível e meditativo, filosófico, quem sabe! A esse momento de leitura, poderíamos chamá-lo de iniciático. É natural que o sujeito busque na leitura, sobretudo na literária, primeiramente algo que o divirta, que lhe dê prazer, sem obrigatoriedade com o produto intelectual, com as verdades existenciais, como também é natural que depois ele busque respostas para suas inquietações, mesmo porque qualquer texto pode, a depender do grau de maturidade do leitor, suscitar questionamentos que levem a outros universos, mais complexos e transbordantes. O que fica claro nas palavras a seguir:
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A leitura exige disponibilidade de tempo. Um tempo para assimilação, vivência e amadurecimento. Um tempo para refletir e sentir. Um tempo para transformar informação em conhecimento. Um tempo contado no relógio interno de cada leitor.


Máscara 2599
A leitura não deve ser vista como uma obrigação. Ela deve ser agradável, atraente, enfim, um entretenimento que possa competir com as diversões modernas à disposição da nossa juventude. A literatura didática com clássicos da nossa literatura muitas vezes é entediante e confusa. Como fazer com que um adolescente, no auge do seu “pique hormonal”, contemple um livro da nossa fase parnasiana, cujo tema central é um vaso de flores?


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Esta ânsia de levar o jovem a leitura, obriga a que estes sejam introduzidos na leitura (...) através da obrigatoriedade da leitura dos notáveis Machado de Assis, Graciliano Ramos ou Jorge Amado que, embora notáveis, ainda não despertaram para esta faixa etária a curiosidade para a leitura. Talvez não seja esta a fase da vida em que estes jovens devam ser introduzidos a estas belas, porém rebuscadas leituras, (...) para que mais tarde as leiam por vontade própria e lhes dêem o devido valor.


Retomando a idéia inicial, o paralelo que é realizado entre o ato de ler e escrever, observa-se que os argumentos centram-se, principalmente, na questão da leitura, mesmo porque o tema proposto aos concursandos foi Ler ou não ler – eis a questão, frase que marca a intertextualidade com Shakespeare em Ser ou não ser – eis a questão. A partir disso, proponho algumas conclusões: A primeira tem relação com título desse artigo Ler para ser: uma questão de opção, explorando a idéia de que, para que estarmos no mundo, temos a opção de lê-lo e nos tornamos seres humanos de fato, seres do lógos, conscientes de nossa condição humana e nossos conflitos. Ou temos também a opção de não lê-lo e não estarmos no mundo, não entendermos as questões existenciais que acabam por ser coletivas - palimpsestos humanos.
Vale lembrar que compreender a nós mesmos é compreender o outro e o mundo. E segundo Perissé (2006: 14), a criatividade humana consiste, portanto, em inteligir o mundo, dando-lhe sentido, interpretando-o, reiventando-o. Inteligir, segundo a etimologia, é ler (legere) em profundidade (intus), ler de dentro para dentro. É na leitura que temos a possibilidade de escolha, que depois de realizada não há retorno, regresso, porque o conhecimento e a consciência desperta-nos para nós mesmos, porque (idem: 70) nossas descobertas, não ocorrem fora do contexto existencial. A ficha cai, ou seja, entramos em contato com a realidade quando com ela dialogamos, carregando a relatividade de nossos juízos (...) pois essa relatividade, da qual temos consciência, produz o sentido de corrigir o rumo sempre que necessário.
A segunda tem relação com o diálogo entre o ler e o escrever. Segundo Yunes (2003: 41), a leitura precede a escrita, não decorre dela. A leitura é uma antecipação da escrita, pois para escrever é necessário ler. E Lontra, em conversa informal durante o seminário Retratos da leitura no Brasil, complementou “A escrita, lida, favorece a melhoria da própria leitura, por que o círculo é dialético.” E assinalo que assim o é porque uma atividade é fruição para a outra.
A última conclusão que proponho é a de que, entre tantos discursos negativos em relação à prática da leitura no mundo, sobretudo a literária, há pessoas que acreditam que ela ocorra de fato. E isso traz para nós, professores e pesquisadores, esperança, esperança no homem, no mundo e para o mundo, porque como já foi dito por Perissé (2006: 72) o contato com a literatura não é mero contato, é encontro. E quando tive a oportunidade de ler esses textos, apesar de eles não pertencerem ao gênero literário mas se revelarem ricos em poesia, pude me encontrar com pessoas que acreditam no poder da leitura literária como fruição para a vida, que confiam na existência de um leitor, independente da sua forma de atuação sobre a realidade dos textos no contexto atual, que se revela, muitas vezes, caótico. E que, principalmente, revelaram-se verdadeiros leitores de livros, do mundo, da vida.


BIBLIOGRAFIA
BAKHTIN, Mikail Mikhailovitch. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Anna Blume, 2002.
Charaudeu, Patrick. Linguagem e discurso: modos de organização. São Paulo: Contexto, 2008.
CHARTIER, Roger. Os desafios da escrita. São Paulo: Unesp, 2002.
GUEDES, Paulo Coimbra. A formação do professor de português: que língua vamos ensinar? São Paulo: Parábola, 2006.
JAUSS, Hans Robert. A história da literatura como provocação à teoria literária. São Paulo: Ática, 1994.
PERISSÉ, Gabriel. Ler, aprender e escrever. São Paulo: Arte & Ciência, 2004.
___ Literatura e educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.
VIEIRA, Josênia Antunes [et al]. Reflexões sobre a língua portuguesa: uma abordagem multimodal. Rio de Janeiro: Vozes, 2007.
YUNES, Eliana. OSWALD, Maria Luiza. A experiência da leitura. São Paulo: Edições Loyola. 2003.
1 Os textos foram corrigidos e classificados em 5 grupos: Textos com nota abaixo de 5 – grupo E; textos com nota entre 5,5 e 6,5 – grupo D; textos com nota entre 7,0 e 8,0. – grupo C; texto com nota entre 8,0 e 9,0 – grupo B; textos com nota entre 9,0 e 10,0 – grupo A. O grupo de textos selecionados para análise, nesse artigo, pertencem aos grupos A e B.
2 VIEIRA, Josênia Antunes [et al]. Reflexões sobre a língua portuguesa: uma abordagem multimodal. Rio de Janeiro: Vozes, 2007:. p. 24. A qualidade de multiletramento é a capacidade de o leitor se mover rapidamente entre os diferentes letramentos. Por esta razão, as práticas textuais se compõem de diferentes linguagens semióticas que podem abrigar a fala e a escrita, a comunicação visual e a sonora, além de utilizarem os recursos computacionais e tecnológicos.

3 Ibidem. P. 53. O texto multimodal é aquele cuja significação realiza-se por meio de vários modos semióticos.

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